Newsletter do Ducs #27: como funciona a saúde na Holanda, dúvidas sobre ser ateu, tipos de corrida, dicas de livro e música, reflexão que mudou minha vida, receita de um smoothie (edição dupla)

E aí? Tudo bem contigo?

Espero que sim. Eu estou de volta depois de um hiato de duas semanas. Quer dizer, de volta á newsletter apenas. Eu estou fora das mídias sociais: o Instagram está deletado do meu iPhone, ao menos por enquanto, e deletei minhas duas contas no Facebook, que já nem usava mesmo (baixei meus dados antes). Possivelmente volto ao Insta, mas para o Face é adeus. A Newsletter segue, e essa semana vem uma edição dupla para compensar o hiato. E não vou pegar leve…

Primeiro vou falar sobre a saúde na Holanda. Semana passada tive que lidar com um olho subitamente inchando e ficando vermelho. Como era o olho operado, liguei no oftalmo – bem, no hospital onde ele atende. Aqui na Holanda raramente os médicos especialistas têm clinica particular. O sistema de saúde é público (na verdade, uma parceria público privado e… espera eu vou explicar mais embaixo). Enfim, finalmente consegui ser atendido, e no fim era um gigantesco de um terçol. Feioso, mas felizmente nada grave, e não afeta a recuperação da cirurgia. Então resolvi aproveitar o ensejo e explicar como funciona a saúde na Holanda.

O olho não impede de eu continuar treinando e correndo. Então vou falar também sobre os diferentes tipos de corrida (e dar a receita do meu smoothie pós-corrida favorito). E para completar, irei responder perguntas que recebo quando as pessoas descobrem que sou ateu (hey, já falei de veganismo e de política, porque não me meter em mais um vespeiro?), dar dica de livro, música e o insight que permitiu eu mudar minha vida totalmente desde 2018.

Está épico!

Vamos lá?

Relembrando as dicas já publicadas aqui na newsletter

Se você terminar muito rápido essa edição, lembre-se que você sempre pode ler as edições passadas. Tem muita coisa boa nesses seis meses de arquivos. Eu vou deixar o link para as três edições anteriores, mas você consegue achar facilmente qualquer outra (até a número 1, que consegui recuperar). Além disso, tem a busca e eu inclui tags em todas as edições, caso você queria ir atrás de um assunto que te atraia mais.

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O sistema de saúde na Holanda (como funciona)

Um dos assuntos mais controversos entre expatriados e imigrantes, o temido (ou incompreendido, depende do ponto de vista), o sistema de saúde holandês causa ansiedade, e causaria dor de cabeça se não fosse os quilos de paracetamol que ele receita. Eu tenho longa experiência com ele – tanto pelas doenças de estilo de vida que enfrentei até resolver mudar em 2018, quanto pela doença genética na visão, sem mencionar os sustos normais da vida, de dedinho topado até saguizinho com 40 graus de febre. E se tem uma área que o choque cultural é intenso aqui na Holanda, é a saúde.

E após tantos anos aqui, eu tenho a estranheza reversa. Outro dia alguém no Instagram perguntou numa caixinha se eu havia consultado um cardiologista antes de começar a correr. Heh. A ideia de ter acesso a um especialista desses só para perguntar “posso começar a correr” é absolutamente alienígena aqui na Holanda. Você simplesmente não tem acesso direto a especialistas. Tem que passar pelo seu huisarts – o médico da família, que é um clínico geral. Você se registra no consultório dele (ou dela, claro), e daí por diante tudo que diz respeito a sua saúde passa por ele. Se o caso foge da alçada de um clínico geral, aí ele te dá encaminhamento para um especialista.

Os especialistas em geral ficam e hospitais. Oftalmo, gastro, cardio, pneumo, etcoetera e tal. Você se registra no hospital, e consegue uma consulta…. que pode demorar um tempinho até ter vaga. Ou um tempão. Tá percebendo porque ter acesso a um cardio para perguntar “posso correr” não faz sentido? Exceto se você tiver de fato um problema cardíaco e estiver sendo tratado por um no hospital, isso seria uma pergunta para seu huisarts (que provavelmente diria “uai, sim, mas me conta, qual foi o problema que fez você me ligar?”).

Tem uma pegadinha nisso: gravidez já não é com seu huisarts. Quando a Carla engravidou da nossa primeira sagui, ela fez um teste de farmácia e, felizes da vida, fomos correndo para uma consulta com a nossa huisarts (na época morávamos em Haia).

— Bom dia, disse ela, qual o problema que traz vocês dois aqui?
— Estou grávida! Exultou a Carla.
— Parabéns! Mas me diz, qual a sua queixa?

Demorou uns minutos para a confusão ser desfeita. Gravidez não é doença, então não é tratada pelo huisarts, mas pela verloskundige (obstetriz), que atende em clínicas próprias. A não ser que a gravides tenha alguma complicação ou a grávida alguma condição que torne a gravidez de risco, aí vira um caso médico. A Carla tem todo um vídeo sobre gravidez na Holanda.

Mas okay, voltando pro huisarts. E se for uma emergência? Depende. Em horário normal, e uma emergência que não ameace a vida, você liga no seu huisarts mesmo. Um corte que precise de pontos, um dedo batido que pode estar quebrado, esse tipo de coisa. Em geral o número das clínicas dos huisartsen (plural em holandês pode terminar em S ou EN) tem a opção de você pedir atendimento imediato. Se for fora do horário comercial, liga no huisartsenpost, que é o plantão médico. Ali eles vão te encaminhar para atendimento mais próximo. Cada cidade tem um número, então é legal descobrir e guardar o número da sua. O de Amsterdam é 088 00 30 600.

E se for uma emergência que põe a vida em risco? Tipo um ataque do coração, um AVC, um acidente grave, você precisa de uma ambulância AGORA? Ai liga 112! Falei disso na edição #17.

Certo. Então temos um médico da família que te conhece e trata a maioria dos casos, deixando os especialistas para cuidar de quem realmente precisa de um especialista, temos o que fazer num caso de emergência, é um bom sistema. Qual é a queixa então?

Well…

Vamos lá. É uma mistura de diferença cultural, sistema sobrecarregado e pressão de empresas…

Fatores culturais que podem causar problemas no sistema de saúde holandês

Os holandeses não são muito fãs de medicina preventiva. Por “não muito fãs de medicina preventiva” eu quero dizer que fãs de metal tem mais interesse em forró do que holandeses em medicina preventiva. Além disso, tem uma grande tendência ao baixo intervencionismo – de deixar ao máximo o corpo se curar sozinho, no máximo usando um analgésico leve para você aguentar firme o processo do seu corpo dar conta do recado. Daí a piada recorrente de que holandês trata tudo com paracetamol. Veja, eu entendo que muitas vezes, esse approach é de fato interessante. E sou o primeiro a reconhecer que nós brazucas temos uma certa tendência hipocondríaca de medicalizar tudo, de exagerar na reação. A imensa maioria das vezes uma dor de cabeça requer mesmo só um paracetamol e não uma ressonância magnética com um neurologista. Se não passa, se piora ao longo de muito, se há outros sintomas, aí, de fato, vale a pena investigar, e mesmo assim, pode ser só o grau do óculos que tá errado.

Tem hora que essa atitude de deixar rolar resulta em coisas virando emergências desnecessariamente, porque com atitudes simples se consegue evitar problemas imensos. Tem hora que esperar passar não é o mais sábio, especialmente quando tem histórico, ou motivos para suspeitar que você não está no caso mais comum. E tem hora que esperar mais três dias para dar o antibiótico só vai resultar em sofrimento, não mencionando risco, desnecessário. Eu tenho diversas histórias minhas e de pessoas que conheço (holandeses inclusive) que levaram um “espera para ver se passa, se incomodar muito toma paracetamol” resultou em consequências graves, de quase morte inclusive. Eu quase perdi um olho. Não a visão. O órgão. E eu pedi ajuda, eu fui no hospital. E me dispensaram com paracetamol e volta amanhã se não passar. Eu acabei procurando ajuda em outro lugar, e descobri que se tivesse esperado mais umas horas teria perdido o olho todo. Mesmo tendo salvo o órgão, perdi irreversivelmente um tanto de visão nele. Um dia eu conto essa história completa. Isso é só um exemplo, eu tenho literalmente dúzias deles, vários de deixar cabelo em pé. Já me dispensaram de emergência com morfina, quando o certo seria internação, exames e observação (com possível cirurgia de emergência). E os meus casos nem são os mais graves, conheço de outras pessoas que quase morreram devido a riscos que não só poderiam, mas deveriam ter sido evitados.

Junta isso com outra diferença cultural entre Brasil e Holanda: na Holanda eles esperam que você seja proativo e independente em tudo, saúde incluso. No Brasil, estamos acostumados a deferir para a autoridade do médico: se ele falou que não é nada, ou que tem que esperar, então nós esperamos. Na Holanda é normal você responder pro médico e dizer que na verdade é algo sim, e que não é o caso de esperar. Se o médico diz “espera” e você cerra os dentes e resolve ignorar os sinais do seu corpo porque o médico disse que era o caso de esperar, e não fala nada, o médico pensa “tá certo, se fosse algo mais grave ele falaria” e temos potencial ainda maior para desastre.

Fatores econômicos no sistema de saúde holandês

Tem também uma outra questão: o quanto desses riscos são devido a uma atitude cultural de “deixa rolar”, e o quanto são resultado de pressão econômica? Porque o sistema de saúde holandês é uma sistema público-privado. Você é obrigado a pagar um seguro saúde, e isso é oferecido por empresas particulares. Agora, essas empresas tem que seguir algumas regras definidas pelo governo. Por exemplo, todas elas tem que oferecer um plano básico por um preço padrão. Esse plano tem que cobrir toda uma gama de atendimentos. E se você não pode pagar nem esse plano básico, o governo subsidia a sua mensalidade. Crianças são cobertas automaticamente sem custo extra pelo plano dos pais até os 18 anos. E as empresas não podem cobrar mensalidades diferentes baseado em quem você é: sua idade, perfil, condição pré-existente. A única coisa que pode encarecer uma apólice são os extras que ela oferece (como cobertura de tratamento alternativos etc). Medicamentos receitados pelo huisartsen também são coberto nos planos (com certas exceções).

De novo, é um bom plano, e de fato permite um acesso universal a saúde de boa qualidade. Por outro lado, todo o sistema de saúde holandês sofre uma pressão das seguradoras que querem, logicamente, cortar o máximo de custos possível. Os huisartsen precisam justificar todo e qualquer tratamento, e preencher papelada para tudo. Há, digamos, um desencorajamento para internações e exames avançados, e se o caso não é extremamente óbvio, fica aquela pressão. Um bom médico vai sempre pleitear o tratamento necessário, claro, mas a pressão do sistema parece empurrar o comportamento geral em direção a complacência: médicos mais resistentes a escalar o problema tem menos inconvenientes. E aí eu me pergunto: quando me mandaram para casa com uma dose de morfina em vez de me internar e fazer os exames que eu precisava, o quanto disso foi uma decisão isolada do médico? O quanto de prevenção deixa de ser feito por uma atitude cultural, e o quanto para poupar custos?

Só uma pincelada

É claro que resumi, simplifiquei e omiti coisas: isso é uma edição da Newsletter, não um tratado acadêmico. Eu quis apenas te situar sobre o modelo geral do sistema de saúde holandês, e dar uma ideia bem aproximada das vantagens e dificuldades dele. Há muita nuance: é óbvio que os holandeses fazem um tanto de medicina preventiva, e em alguns casos, mais do que no Brasil. Por exemplo, mas escolas públicas fazem exames de vista e audição em todos os alunos, e qualquer anormalidade é encaminhada para um especialista. De novo, estou falando de maneira geral. e de uma forma ou de outra, a expectativa de vida na Holanda é acima da média da União Europeia como um todo, e dificilmente se consegue isso com um sistema de saúde falido ou inoperante.

O que me leva a outra questão, quando abordo o assunto: eu não estou comparando com o sistema de saúde pública no Brasil (queria ganhar um euro para cada vez que alguém me respondeu “mas no Brasil é pior” para cada vez que ouse insinuar que a Holanda não é a mais absolutamente perfeita manifestação de Sha-gri-la na Terra….). Estou plenamente consciente que há lugares piores na Terra (e nunca ouvi um brasileiro se consolando com “mas na Somália é pior” quando reclama da insegurança das ruas). Eu não nasci na Holanda, e vivi a maior parte da minha vida no Brasil e as vezes as pessoas parecem esquecer disso. Mas o ponto não é esse. O ponto é: tem prós e contras, e é preciso saber dos dois se você quer morar aqui (ou se apenas tem curiosidade de saber uma visão um pouco mais realista de como é a vida aqui.

É preciso dizer que quando a emergência escalou de fato, eu tive acesso a atendimento de primeira linha, e tratamento de ponta, com a mais avançada tecnologia para me ajudar. Já fui levado de ambulância para a pronto atendimento, e fui muito bem tratado. Fiz cirurgia prevista e de urgência aqui. E isso tudo sem pagar um euro a mais do que a minha apólice de seguro cobra regularmente (eu paguei a franquia prevista e a mensalidade normal). E eu admito que nem todo espirro requer tomografia computadorizada. Eu também acho razoável dividir um quarto de hospital no pós cirúrgico, como já fiz em todas as diversas cirurgias que fiz aqui, para que mais pessoas tenham acesso a leitos. E tenho perfeito entendimento de que cabe a mim me adaptar a cultura do local, em vez de esperar que ela mude para atender as minhas expectativas. Por outro lado, eu gostaria que um pouco mais de empenho fosse colocado em evitar que certos casos cheguem a ser emergências, e menos pressão fosse colocada em bons médicos que vão atrás do problema antes dele piorar. Nenhuma diferença cultural pode justificar uma vida perdida por algo que poderia, de fato deveria, ter sido evitado. E mesmo se você alegar que é um bom sistema no geral, não quer dizer que não possa ser ainda melhor, especialmente quando a gente trata de saúde, sofrimento, vida ou morte.

Falando em morte…

As perguntas que recebo quando digo que sou ateu

Era comum na caixinha de perguntas do Instagram as pessoas me perguntarem a minha religião. Eu respondia que sou ateu. E isso despertava uma série de perguntas e curiosidade das pessoas. Com o tempo notei algumas dúvidas (e conceitos errados) comuns sobre ateísmo, ou ao menos, a minha visão sobre ele. Acho que pode ser interessante abordar algumas delas aqui.

Antes de começar vou deixar claro algumas coisas:

  1. Eu não quero converter nem desconverter ninguém. Religião é algo profundamente pessoal, e não tenho a menor pretensão de mudar a sua visão. Eu não vou defender ateísmo, nem atacar nenhuma religião. Você tem (ou não) a sua religião? Por mim tá tudo certo. Discorda das minhas conclusões e respostas? Tá de boas, eu aceito isso tranquilamente. Eu não sou o Richard Dawkins. Por falar nisso…
  2. A ideia é explicar como eu (Daniel) lido com algumas questões comuns. Eu não falo por outros ateus. Eu não estou falando sobre ateísmo no geral. Isso não é um tratado religioso-filosófico, isso é a Newsletter do Ducs, e eu tenho uma visão particular sobre o assunto. Talvez você ache interessante. Talvez não (sempre tem o próximo assunto, ou a próxima edição).
  3. Eu estou aberto a responder outras perguntas além das que listei aqui, e super topo esclarecer mais sobre como encaro o ateísmo. Mas eu não gostaria de entrar num lance de “defender” minha posição. Isso já aconteceu muito, e já me disseram um monte de coisas, Já me disseram que eu irei para o inferno, já me mandaram ler a Bíblia (já li, aliás, todinha, até as listas de nomes), ou ler outros filósofos, já tentaram me convencer que eu apenas não era cristão, mas outra religião estava certa e era super compatível com as minhas visões, já me xingaram de “mente fechada” (irônico, sendo que já me dispus a mudar de visão religiosa incontáveis vezes, li sobre diversas religiões, enquanto que a pessoa nunca admitiu qualquer outra visão religiosa além da sua) e por aí vai. Eu sei que o assunto é sensível para muita gente, e entendo as reações, por isso já adiantei algumas aqui.
Ah sim, obviamente: ateus não acreditam nem em Deus nem no Demo. O chifrinho é só METAL e a cara feia é a que Deus me deu… ops, quer dizer, minha genética.

Okay, chega de disclaimer. Vamos começar…

“Você não é religioso, mas é espiritual? Acredita em algo maior?”

Resolvi começar pela mais comum das dúvidas. Não, não sou “espiritual” no sentido esotérico da palavra. Eu não acredito em forças sobrenaturais. Se algo se manifesta no universo, é por definição natural, e deve seguir as regras do universo físico. Logicamente, estamos sempre refinando o nosso entendimento dessas regras, e expandindo o conhecimento, e é razoável rever conceitos conforme novas informações surgem. Mas uma coisa é entender que a física newtoniana não é a explicação completa, e é outra acreditar que o Universo conspira a nosso favor quando realmente queremos algo. Se não entendo ou desconheço a explicação de algo, eu não atribuo a forças misteriosas, sobrenaturais, ou espirituais [God of the Gaps]. Se algo dá certo, ou errado, é consequência de forças naturais que seguem regras válidas e reproduzíveis em todo o universo para todos os seus componentes, e não consequência de uma intervenção intencional de forças sobrenaturais, seja quais forem. Eu não atribuo características humanas ao Universo como intenção, moral, propósito, motivo, razão. Ah, aqui já surge outra questão…

“Se o Universo não tem moral, isso quer dizer que é imoral? Como é possível ter moral sem religião?”

Pera, eu encaro o universo como um lugar (tecnicamente, um espaço-tempo), não uma entidade antropomórfica. E um lugar não é moral nem imoral. Minha sala não tem moral. Não quer dizer que ela seja imoral, quer dizer que o atributo (ou ausência dele) não cabe. Tipo, minha sala não é aguda nem grave, isso é característica de sons, não cabe para descrever a sala. Moralidade é característica de pessoas e como elas agem, não de salas (ou do universo). E pessoas agem de diversas maneiras por diversos motivos diferentes.

Eu procuro agir de maneira responsável e moral de acordo com minha consciência interna, não devido a imposição externa. Outras pessoas tem motivos diferentes, mas não importa. Não prejudicar os outros é um bom princípio, seja ele dado por religião, lei ou apenas compasso moral interno. Certamente pode ser dado por todos esses ao mesmo tempo, ou apenas um. E basta ver certos cultos para ver que religião, como qualquer outra coisa, pode ser usado para justificar atos imorais. Muitas atrocidades foram cometidas em nome de religião, ideologia e avanços científicos, todos muito sinceros. Todo mundo tem telhado de vidro nisso, e dizer “minha visão é a única que permite moralidade” é um pouco pretensioso e perigoso. Dá para ser moral (ou imoral) com (ou sem) religião.

Eu sempre acho curioso frases como “cuidado como você trata os outros, você não sabe o dia de amanhã, e pode ser que dependa de quem você está maltratando hoje”. Uai, não maltrate os outros porque isso causa sofrimento em outras pessoas, não porque isso pode se voltar contra você. Da mesma forma, é absurda a ideia de matar alguém (salvo casos extremos de legítima defesa, etc), mesmo na ausência de castigo (humano ou divino). Se quer uma justificativa para isso no ateísmo, aqui vai uma: se a vida é única, sem continuidade após a morte, ela é absurdamente preciosa e deve ser protegida. Se a essa é a nossa única jornada, devemos ao máximo uns aos outros nos ajudar, proteger, e aliviar o sofrimento sempre que possível. Prejudicar outros em suas únicas e preciosas jornadas passa a ser algo altamente imoral.

Por falar em jornada…

“Se não há nada depois, nada tem sentido, nada do que fazemos faz diferença, e só resta o desespero!”

Hm, acho que tem muita confusão entre ateísmo e niilismo. Um niilista certamente é ateu, mas um ateu não é niilista. Um niilista nega tudo, incluindo qualquer sentido na vida e o próprio conceito de moral. Inclui extremo pessimismo, diz que conhecimento é impossível, entre outras coisas. Nada disso faz parte da minha visão de mundo.

Para mim a jornada importa, e não é porque ela é finita que ela seja sem sentido. Toda viagem acaba, e nem por isso deixo de viajar. E eu acho o poder de determinar eu mesmo o sentido da minha vida extremamente libertador. E me dá um senso de grande responsabilidade também, pela qualidade da minha jornada, e pelo impacto que ela tem nos outros. Me enche de admiração pelo raro privilégio que tenho ao compartilhar essa jornada com outras pessoas. Sim, o que eu faço faz diferença, e muita. Na verdade, sendo essa a única e finita jornada que tenho, e sendo isso verdade para todos que estão vivos nesse momento comigo agora, e sendo que o que faço pode impactar essas outras jornadas, e das pessoas que virão depois…. isso me enche de alegria e entusiasmo por torná-la a melhor possível para mim e para os outros! Me inspira a respeitar as diferenças e admirar a individualidade de cada um, justamente porque são únicas, finitas e preciosas! O que sinto é o oposto de desespero e falta de sentido!

Sim, um dia minha jornada irá se encerrar, e meus átomos serão reciclados e rearranjados para que outras jornadas surjam, aconteçam e por sua vez sejam recicladas também. E acho isso fantástico. Como não achar? Vivemos num universo em constante mudança, evolução, alteração, e a consciência disso é um raro privilégio pelo qual sou muito grato. Me enche de assombro saber que meus átomos vieram de estrelas, e me enche de gratidão poder ter consciência disso, de apenas ter consciência, ponto. Devolver meus átomos ao sistema, fazer parte desse ciclo é parte desse privilégio, é essa reciclagem que permitiu eu existir e ter consciência em primeiro lugar. Mas até minha jornada chegar ao fim, eu vou aproveitá-la o melhor que puder, e vou te ajudar o mais que puder, para que você aproveite a sua também (mesmo que você tenha uma visão diferente da minha e seja religioso – respeito pela individualidade, lembra?).

“Sem uma religião, você fica apegado a coisas materiais, prazeres terrenos, sem interesse em querer desenvolver valores espirituais além da recompensa imediata?”

Outra confusão comum é do ateísmo com o hedonismo. Nessa filosofia, a busca do prazer é central e a busca dele é a única coisa que importa (assim como niilismo, estou obviamente simplificando – de novo, lembrando que essa é uma newsletter, não um tratado de filosofia). Muita gente acredita (erroneamente) que um ateu, por não ter uma religião, não se importa com autoconhecimento, investigação da própria consciência, só se importa com a matéria, e quer apenas maximizar o prazer enquanto pode, livre de consequências eternas. Desnecessário dizer que essa não é a minha visão.

Primeiro, obviamente que prazer é um aspecto importante da vida, mas isso vale para todos, religiosos ou não. Mas não é o único aspecto, nem para religiosos nem ateus (necessariamente). Certamente não é para mim. E eu ser ateu não quer dizer que eu só me interesse pelos aspectos materiais da vida.

Pelas respostas anteriores, você já notou que aspectos morais são extremamente importantes para mim. Além disso, entendimento da minha própria consciência é importante. Na verdade, diria que é uma das coisas mais importantes que eu poderia fazer com a minha vida. Entender como ela funciona é essencial, uma vez que a consciência é a única maneira pela qual podemos interagir com o mundo. É nela que surgem nossos pensamentos, é ela que recebe os impulsos, é nela que surge ação ou reação. Sem um trabalho de entendimento da nossa consciência, estamos escravos dos pensamentos conforme eles surgem, estamos condenados a reagir constantemente, deixando o foco da nossa atenção derivando no automático atraído pelo quer que surja em sua frente na hora.

Você não precisa ser religioso para buscar entender e aprimorar sua vida interior, e a manifestação da sua consciência. E ao fazer isso, um ateu pode enxergar que prazer é apenas um dos aspectos da consciência.

A busca desse entendimento é um objetivo perfeitamente válido de se ter durante nossa jornada, e assim como um religioso pode ao mesmo tempo buscar uma enriquecimento da vida espiritual e comunhão com um Deus (ou deuses), um ateu pode buscar entender sua consciência, e através disso ser uma pessoa melhor e dessa maneira melhorar a sua vida e de outros. E ateus e religiosos podem, ao mesmo tempo, curtir também aspectos materiais da vida (não vai me dizer que só ateus gostam de ver filmes legais, ter celular e comer coisas gostosas?)…

Bom, esse tema é vasto, e eu posso voltar ao assunto de novo, se houver interesse (se você está inscrito na newsletter, pode responder ao email e me dizer se acha válido). Mas por hoje está de bom, tamanho. Meu objetivo foi apenas dar uma ideia de como eu encaro certos aspectos da vida sendo um ateu. Talvez desmitificar algumas visões sobre o assunto. De novo, não quero converter (ou des-converter) ninguém, e entendo e aceito que minha visão não é única. Mas agora vamos para algo mais leve…

Receita do meu smoothie de recuperação pós-corrida

Quando eu chego de uma corrida compridona, eu quero comer alguma coisa logo. Eu acabo batendo um prato de comida mesmo, mas as vezes, enquanto estou fazendo a comida, eu mando um smoothie para dar aquele reforço.

  • 1 banana (energia!)
  • 1 colher de sopa (30g) de proteína vegetal (ajudar a recuperar os músculos)
  • 1 punhado ou 2 de blueberries (em português se chama mirtilos. Ricos em antioxidantes. Pode substituir por morangos, amora ou qualquer outra fruta vermelha da sua preferência)
  • 200 a 250ml de leite vegetal
  • 1 pitada de sal (se a corrida foi forte mesmo, já que perdemos sais pelo suor)
  • 1 pouco de chia (eu gosto de chia)

Se você quiser, pode por um pouco de extrato de baunilha (eu ponho quando tem). Bate tudo e manda pra dentro!

Como eu disse, não tomo isso depois de toda corrida, apenas depois das mais pesadas, em geral o longão (long run). Ah sim: em vários tipos de corrida…

Os vários tipos de corrida

“Eu odeio correr” ou uma variação disso é algo que ouço bastante. Pra falar a verdade, eu mesmo falava bastante. Só depois de muitos anos eu descobri que na verdade, eu não odiava correr… eu só não sabia como! E vamos concordar, quando a gente não sabe como fazer, até sexo pode ser ruim…

Mas a sério: eu tinha aquela imagem que qualquer um sabe correr – ou qualquer um que tenha pleno uso das pernas. Quer dizer, é uma das primeiras coisas que uma criança faz logo após aprender a andar, é correr! Se um piá de três anos sebe, como que eu não saberia? Pois.

De fato, crianças logo aprendem a correr. É um instinto natural do ser humano. Eu até falei sobre a teoria do “nascidos para correr” na edição #23. E logo aprendem a passar o dia todo sentado também. Por décadas. E nosso corpo se adapta como consegue ao que a gente pede dele. Se passamos o dia sentado, ele faz o melhor que pode para sentar super bem… e desativa o que não precisa. Aprendemos a sentar e esquecemos como correr.

Corrida já foi parte essencial da vida do Homo sapiens. Hoje é apenas um esporte. E como qualquer esporte, é preciso aprender a praticar. Você aprende a patinar, ou jogar basquete. E pode aprender a correr também… e ao fazer isso pode, como eu, descobrir que correr é divertido, e passar a correr porque é divertido… como jogar basquete, ou patinar podem ser.

Não que correr não tenha benefícios: esse estudo de 2014 descobriu que correr aumenta a expectativa de vida em três anos e diminui risco de morte para todas as causas! Se você correr, você tem menos de chance de morrer, independente de todos os outros fatores de risco. Eu não sei você, mas eu aceito três anos extras nessa minha jornada…

Eu já falei em diversas edições que o principal erro de principiante em corrida (e para falar a real, não só de principiantes) é correr rápido demais. (por exemplo, na edição #16, e na edição #17). Se você mantiver sua pulsação baixa e correndo de boas, vai conseguir correr mais vezes, mais longe (e com o tempo, mais rápido também: você fica mais eficiente em correr). Fazendo isso regularmente vai te dar aqueles três anos extras na expectativa que o estudo achou.

Mas se você quiser ir além e começar a praticar corrida como um esporte em si, e quiser avançar nele, com objetivo não apenas dele se divertir ou melhorar a saúde, mas além disso obter tempos específicos para certas distâncias, vai descobrir que existe mais de um tipo de corrida. Na verdade, até é legal variar um pouco depois de um tempo. Só lembre de manter a maioria, a imensa maioria (ao redor de 80%) das corridas fáceis. Isso vale até para corredores profissionais. Mas vamos lá. Tipos de corrida;

Corrida regenerativa (recovery run)

Essa corrida tem como objetivo te manter ativo enquanto você se recupera dos treinos mais puxados. O objetivo da regenerativa não é aumentar seu fitness, ou te deixar mais rápido. É fazer você se recuperar. Então vai na manha! Maneire na distância e certamente na intensidade. Correr regenerativo muito forte é um erro comum e um que custa caro. Ao contrário de se recuperar, você pode é se machucar. Essa é a corrida que é para ter um emoji de lesminha mesmo. Sai para ver o mundo lá fora, em movimento. E só.

Corrida de base / corrida fácil (base run / easy run)

Essa corrida pode ser um pouco mais comprida do que a regenerativa, e um pouco mais rápida. Um pouco! Nada de elevar a pulsação muito. Com a corrida de base você está aumentando seu condicionamento aeróbico e criando uma boa base para construir em cima fazendo treinos mais puxados. Se você corre por saúde apenas, essa é a sua corrida: pode ficar apenas nela. E mesmo se você treina corrida como esporte, mesmo que você esteja treinando para ser especialista nos 100m rasos, a corrida de base constitui a maior parte do seu treino. Super importante. Sem base não tem onde construir velocidade, não tem onde construir resistência, sem base não tem 100 metros rápidos nem ultra maratona. Eu olhava as corridas fáceis do plano e dizia “tsá, muito lento, eu aguento correr mais rápido que essa velocidade recomendada”, e de fato corria…. sabotando a construção da minha base e me prendendo para sempre naquela zona cinzenta de nem muito rápido nem muito longe. Até que eu aprendi a regular minha velocidade, entendi que nem toda corrida é uma prova para correr no máximo da velocidade, que é fácil achar que tá correndo fácil enquanto seu coração tá lá em cima e passei a construir, lentamente (muuuuito lentamente) a minha base. Fiquei mais lento antes de ficar mais rápido, mas eventualmente e com paciência eu fui progredindo, e pude notar avanços nas corridas mais intensas. Por falar nelas…

Fartlek

O nome bizarro é uma palavra sueca em geral traduzida como “brincar de correr” ou “brincadeira de velocidade”. É correr que nem criança, que varia a velocidade conforme dá na telha. A maior parte é devagar, mas tem surtos de velocidade espalhados no meio. É boa para melhorar a postura e aprender a correr rápido, mas sem cansar tanto.

Intervalos / tiros (intervals / sprints)

Aqui a coisa começa a ficar puxada. Intervalos são períodos (ou tiros) curtos de corrida bem rápida, com um pequeno intervalo de recuperação entre eles. Ao contrário do fartlek, é bem estruturada. Você faz um trote de aquecimento, repete os tiros, alternando com um trote de descanso, e daí faz um desaquecimento. O seu plano de treino ou treinadora vai escolher o número de repetições, distâncias, e intervalo de recuperação entre elas. Os tiros são bons para desenvolver sua velocidade final e postura. Não abuse desse tipo de corrida, quando for correr de novo, é legal fazer uma corrida de recuperação.

Tempo run / threshold run

Essa corrida é rápida, e feita no limiar da sua resistência. A descrição é “confortavelmente desconfortável). Aquela corrida que não é particularmente gostosa, na verdade é difícil, mas pode ser sustentada por um bom tempo (se você está treinado, por até uma hora, ou uns 20 minutos se você é iniciante). Esse tipo de corrida vai ensinar seu corpo a tolerar melhor o ácido lático que se acumula nos músculos quando se aumenta o esforço, além de treinar sua resistência mental à fadiga, habilidades essenciais em provas.

Longão (long run)

A corrida mais comprida da semana, que vai estender sua resistência, construir força nos músculos (coração incluso) e na mente. É isso: é feita para aumentar força e resistência, não velocidade. Seus pés vão aguentar mais corrida. Sua mente vai aprender a concentrar por períodos mais longos. Sua capacidade de queimar gordura como combustível vai ficar maior. É feita num rimo mais lento, parecido com o da corrida de base. Na verdade é uma super corrida de base.

Existem muitos outros tipos de corrida (como progressivo, hill repeats, pirâmide e por aí vai). Mas essas já podem levar sua corrida pro próximo nível.

Estrutura básica do treino de corrida

Se você treina corrida três vezes por semana, pode fazer uma corrida de base, uma corrida de velocidade (alternando entre tiros, fartlek, tempo) e um longão. Se você treina quatro vezes, acrescenta uma regenerativa ou de base, dependendo de quão cansado está. Dedique ao menos um dia da semana para exercícios de apoio: força e mobilidade nas pernas, abdome e quadril. E é importante também diminuir a intensidade semanal do treino regularmente (uma prática comum é ir aumentando aos poucos a intensidade por três semanas seguidas, e diminuir por uma semana).

É claro que isso são apenas princípios gerais, e cada treino (e pessoa) é única. O ideal, logicamente, é ter uma treinadora profissional para te orientar. Se você comprar ou baixar um treino pronto na Internet, tente enxergar essa estrutura por trás das sessões. Você vai reconhecer várias coisas que mencionei aqui.

Dica de livro: Waking Up (Despertar)

Autor: Sam Harris

Se você quer um exemplo de como um ateu trata espiritualidade, esse é um excelente livro. Por espiritualidade, Sam Harris quer dizer o autoconhecimento, estudo e entendimento da mente e consciência, não necessariamente a existência de uma alma imortal (ou espírito). Rejeitando sem desrespeitar a religião (ele reconhece os diversos contribuições da religião, inclusive no desenvolvimento de conceitos chave no entendimento da mente), Sam Harris investiga o que constitui a consciência, como praticar e exercitar sua vida interior, e faz isso sem usar o sobrenatural, ou esotérico, ou religioso (são coisas diferentes). A discussão é profunda: tem várias passagens que tive que ouvir/ler diversas vezes para serem absorvidas, e muito do que ele fala só é completamente entendido aliado à prática regular. É um livro curto, mas não é simples. Porém, vai recompensar o seu investimento. Na verdade sem esse autoconhecimento é difícil imaginar uma vida mais significativa, e Waking Up é um bom ponto de partida para discutir isso de maneira honesta e direta. Dali por diante, é contigo.

Curiosidade: Sam Harris tem um app de meditação com o mesmo nome, o qual já recomendei aqui.

Na Amazon em português (não é link afiliado. Não ganho nada se você comprar – coloco apenas como serviço para você achar os dados técnicos do livro, Isso vale para todos os links da Amazon que já coloquei nas Newsletters).

Frase da semana

“O Universo não tem a obrigação de fazer sentido para você”

Neil deGrasse Tyson

Dica de música: não é a qualidade do instrumento…

A dica de música da semana é esse clip do guitarrista Zakk Wylde, que tocou com Ozzy Osbourne, tocando um cover da música N.I.B. do Black Sabbath…. num violãozinho de brinquedo da Hello Kitty. E ele apavora! Se esse cover acústico não fizer você dizer “tem pelo menos uma música de heavy metal que eu curti”, nada mais fará.

A propósito: na vídeo Zakk alega que a guitarra é de 1962. Eu não sei se ele tava tirando onda ou se tem alguma coisa que eu não sei, mas eu sei que a Hello Kitty foi criada em 1974…

“The cat’s pajamas” é uma expressão em inglês que quer dizer “algo ou alguém muito excelente”. Heh. Sem mais, enjoy:

Pensamento da semana: O insight que me permitiu mudar minha vida

Em 2018 eu estava obeso, doente, estressado e explodindo por qualquer coisa, sem paciência nenhuma. Briga atrás de briga. Nenhuma energia. Todo desequilibrado. E para cada uma dessas coisas eu achava uma explicação. Genética. Azar. Idade… estava com 44 anos, plena meia idade. A idade que as coisas começam a desandar e a conta chega, né? Nada a fazer.

Nada a fazer. Ou…. tem o que fazer? Não é possível que não tenha nada a fazer…

Boom. Simples né? Nem um pouco original. Não era a primeira vez que encontrei esse pensamento. Mas foi a primeira vez que acreditei.

Sim, o mundo é injusto, e circunstâncias externas além do nosso controle nos afetam e ditam nossa vida em muitos aspectos. É um fato e não estou discutindo isso. O que mudou minha vida foi perceber que eu tinha controle sobre as circunstâncias internas, sobre a minha atitude em relação as circunstâncias externas. Não escolhi meus genes, não tenho como voltar o tempo, mas tenho certo controle sobre meu estilo de vida, e posso certamente mudar muitas coisas. E cada ação que eu muda, traz novas consequências. Em vez de apenas reagir, eu poderia planejar… e agir.

Sempre tem um fator externo impedindo nosso progresso. Sempre. Ah, eu até queria correr, mas não tenho mais idade para isso. Ah, eu queria correr, mas estou muito acima do peso. Ah, eu queria correr, mas tenho dores no pé. Ah, eu queria correr, mas está muito frio. Eu pensei isso tudo aí já. Desde 2018 eu já corri mais de três mil quilômetros. Eu não fique mais jovem desde 2018. Mas eu simplesmente não perco mais o fôlego em atividades cotidianas. Subir escadas? Nem altera minha pulsação. Dar um pique para pegar um ônibus? Respiração normal. E as dores nas juntas na meia idade? Exercícios de mobilidade, força melhoraram minha postura e elas sumiram. A Carla sempre lembra que eu dizia que estava “velho demais “para agachar e destravar a tranca de baixo da porta da frente de casa. Eu não conseguia agachar e dizia que a culpa era da idade – nada a fazer! Pois, a idade continuou avançando, mas hoje eu faço agachamentos em série com peso. Como assim, nada a fazer?

Nada a fazer com a minha barriga eu dizia também. Idade, genética. Não o é que tinha algo a fazer? Minha cintura hoje é metade da minha altura. E não fiquei mais jovem nem mudei minha genética.

Falta de energia? Continuo tendo dois filhos, horários, trabalho. Mas não como do mesmo jeito. Explosões de raiva? A meditação me ajudou a quebrar a identificação total com cada emoção que surge.

Não tô dizendo que resolvi todos os problemas e tudo é uma beleza. Eu ainda fico resfriado, cansado, com preguiça, perco a paciência as vezes. O que eu tô dizendo é que no minuto que mudamos a responsabilidade sobre nossa vida do externo para o interno, nossa vida muda junto.

Você já ouviu isso, certamente. Não tem como controlar a direção do vento. Mas você tem como ajustar suas velas e usar bússolas e planejar um curso e aprender a navegar, e assim mesmo chegar onde quer. Não que a viagem seja fácil, que não tenha tempestades imprevistas, e ondas que podem virar, e as vezes viram, o nosso barco. Mas não precisamos ficar na água lamentando o destino cruel para sempre.

Você já ouviu isso antes. Agora acredite.

Obrigado e até a edição que vem

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Um grande abraço e até semana que vem!

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