Newsletter do Ducs #26: o problema de gamificar a vida, carimbos legais para melhorar seu journal, o próximo passo na sua corrida, holandês, filme e desenhos

E aí? Tudo bem contigo?

Essa semana continuamos com as férias escolares de Maio dos saguis (sim, isso existe, contei na edição passada). Tivemos também o Dia do Memorial e o Dia da Libertação da Holanda, para que a gente não esqueça onde o radicalismo político e ideológico, a desumanização dos outros, pode nos levar. Por outro lado, tivemos também o dia da Libertação, que comemora a data em que tropas canadenses liberaram a Holanda.

Na frente de casa: ainda é primavera

Nessa edição eu vou falar um pouco sobre esse período infeliz na minha indicação de filme, mas também vou falar de coisas mais leves, como dica de lojas de carimbos para seu journal (e mostrar um pouco dos meus carimbos), comentar um pouco sobre língua holandesa de uma maneira divertida com exemplos de holandesismos no português dos meus filhos, dar dica de um desenho animado que faz nossa família rir, dar dica de como ir para o próximo estágio na sua corrida e abordar a questão da gamificação da vida (e como lido com isso).

Está bem variado, e interessante. Você vem comigo?

Para você poder ler e reler as edições anteriores da newsletter

Uma das coisas bacanas de ter um projeto independente é que posso escolher o quanto tempo meu conteúdo fica no ar e fácil de achar. Tem muita coisa interessante que já rolou e continua lá te esperando, para você ler no seu ritmo (e consultar quando quiser). Eu costumo colocar um link resumo para as três edições mais recentes, e de lá você sempre pode pular para outras. Dá uma olhada no que rolou nas semanas recentes:

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Se você notar, na newsletter não tem nenhum anúncio. Nem banner, nem links inseridos no meio. O foco é no conteúdo e em quem vai ler: você. E isso só é possível porque o projeto é 100% financiado por quem vai ler: você. Isso tem muitas vantagens:

  1. Eu não preciso te por pressão para comprar nada, nem clicar em lugar nenhum. A existência da newsletter não depende de táticas de venda, apenas da qualidade do seu conteúdo. Se é bom, a pessoa contribuiu. Então meu incentivo é apenas produzir o melhor conteúdo que eu puder, e facilitar o mais que eu puder a leitura, e não aumentar cliques.
  2. Com assinaturas e contribuições avulsas, eu não preciso gastar tempo procurando links e produtos que vendam e tenham sucesso comercial, e posso te indicar coisas que não estão necessariamente a venda num grande site de vendas com afiliados. A loja de carimbos que vou indicar nessa edição não tem programa de afiliados, e não tem como eu monetizar essa indicação. Sem problemas, graças ao seu apoio, eu não preciso monetizar minhas indicações.
  3. Eu não preciso agradar algoritmos: Obviamente o algoritmo não tem como lucrar com um site que não quer vender nada, então ele não vai me promover. Se ele não vai me promover, eu não preciso seguir as regras dele. Eu posso usar linguagem natural, fazer frases com duplo sentido e cheias de neologismos, eu não preciso repetir palavra chave, nem incentivar engajamento artificial e superficial. Eu posso escrever coisas longas, e com assuntos variados e sem um nicho claro para o algoritmo me classificar numa das caixinhas pré existentes. Eu sei que isso não vai inflar meus números. Mas graças a seu apoio, eu não preciso.
  4. Como agradecimento, eu vou colocar seu nome nas edições que você apoiar, e você vai ter acesso ao encontro virtual mensal, para a gente conversar.
  5. Seu apoio permite essa edição da newsletter ser gratuita e aberta para quem, por qualquer motivo, não pode apoiar. Sua contribuição ajuda a muito mais pessoas terem acesso às edições regulares da newsletter.

Aqui tem um botão para o site do PayPal, onde você pode contribuir com um valor que escolher (tem algumas sugestões, mas você pode determinar também). Você pode contribuir uma vez, sempre que puder, ou mensalmente. E se você mora na Holanda e prefere usar o Tikkie, me manda um email ou contato.

Muito obrigado pelo seu apoio! Agora, vamos pra…

Onde comprar carimbos legais para seu diário ou postais

Eu sou um adepto de fazer diários (ou journal), e já até fiz um post só sobre esse assunto. Dá para fazer um diário com qualquer caderno e qualquer caneta, e não tem certo nem errado, e para começar, o melhor material é o que você tem à mão.

Okay, mas com o tempo, dá para ir fazendo umas graças, e melhorando a experiência. Eu amo usar caneta tinteiro (e sim, tem toda uma galera que é adepta. Eu falei de canetas tinteiro para iniciantes na edição #15, dá uma lida lá! Já é um grande upgrade na curtição do diário. Mas hoje eu vou falar de outro: carimbos. Eu. AMO. Carimbos.

Dá para notar que eu amo carimbos? (Esses são só alguns)

Carimbos podem dar um charme extra para as páginas, e você pode combinar diversos. Outro truque é usar parte de um carimbo: você cobre a parte que não deseja que apareça com algo, digamos, fita adesiva (sabia que “durex” é camisinha aqui na Holanda? Cuidado com o mico). Você põe na almofada de tinta, tira a fita adesiva e imprime apenas a parte escolhida. Dá para reinventar uma porção de carimbos assim também.

Em tempos pré pandemia, um dos meus programas favoritos era ir na Posthumus Winkel aqui em Amsterdam e ver os carimbos existentes e novos. Além de enfeitar o journal, eu criei muitos postais usando os carimbos da Posthumus winkel. A dona até já me reconhecia e tirava onda “ah, mandei fazer esse aqui para você. Pensei “esse o Ducs vai adorar”. Minhas defesas psicológicas já não eram altas naquela loja, você calcula que era presa fácil. A Posthumus exige uma certa maturidade para não vender a casa e trocar por carimbos…

Servem para decorar a mesa também (“decorar” é como eu chamo carinhosamente a minha baderna)

Hoje em dia é mais fácil controlar, já que a coisa é online. Mas olha a série deles sobre Amsterdam e Holanda, que demais. É perfeita para combinar com a série de viagem e postais deles e virar um postal personalizado. Ah, olha todas as séries deles aqui.

Se você estiver se sentindo particularmente inspirado, aproveita e passa um tempo na Cafe Analog, outra loja de hobby, com carimbos, adesivos com temas legais, washi tape e mais coisas de curtição para suas artes (papel, cadernos, canetas, e por aí vai). Uma coisa bacana é que eu recebi uma nota personalizada e escrita a mão pela Desiree, a dona da Cafe Analog. Até onde eu sei, ela manda uma em toda encomenda. É uma loja pequena, uma empresa criada e mantida por ela. A loja é basicamente online apenas, mas eu a conheci num evento que ela promovia na época do antigo normal, onde a galera ia se encontrar para tomar café, escrever, criar e trocar experiências. Se algum dia isso voltar, recomendo. De toda forma, a loja online está rolando agora, e tem frete internacional.

Você pode misturar os carimbos com desenhos também

Por falar em frete: eles oferecem um lance interessante: você pode reservar uma caixa, e ir adicionando coisas nela ao longo de seis semanas. E só aí eles enviam para você. Isso ajuda se você quer ir comprando aos poucos e não quer pagar frete em tudo.

Influências do holandês no português dos meus filhos

Na edição passada, dedicada à criação de saguis (crianças) na Holanda, eu falei sobre língua e como nós falamos um portu-landês mistureba. Mas uma coisa interessante que não comentei lá é a influência do holandês dos saguis, na gramática mesmo, quero dizer. Interessantemente, o inverso não ocorre (ou ao menos me dizem as professoras deles). O que acontece é que eles aplicam a lógica da gramática holandesa no português com algumas traduções literais que confundem as vovós. Vou dar uns exemplos e assim você já aprende uns holandesismos.

Posso água?

Em vez de pedir “me dá um copo d’água?”, eles pedem desse jeito, que é uma tradução literal de “Mag ik water?“. Em holandês é como se pede educadamente algo “Mag ik [….]”?” Note que a frase em holandês omite o verbo auxiliar (hebben – ter) que poderia ir ao fim da frase, mas é opcional colocar (e na real não colocam nessa forma). Posso água, posso um doce, criando saguis na Holanda certamente você vai ouvir algo assim.

Uma beijoca bem gorda!

Essa confundiu algumas vovós em despedidas de Skype/WhatsApp. É a tradução literal de “een dikke zoen”. Dikke é gorda, zoen é beijoca. Seria, claro, o equivalente de “um grande beijo”.

De mim pode!

Usada pela saguizagem para indicar concordância com alguma coisa. Tradução literal de “van mij mag het”. Seria português brasileiro para algo como “por mim tudo bem”.

Eu não tô fazendo briga!

Em holandês eles “fazem” briga, “ruzie maken“…

Dica de desenho: Buurman & Buurman (Pat e Mat)

O que nunca dá briga aqui em casa é assistir ao desenho animado de massinha (stop action) chamado Buurman & Buurman. É um desenho da Checoslováquia (acho que o país tem esse nome porque eu tenho que toda hora “checar” qual é o nome que eles estão usando agora, muda o tempo todo…), popular em muitos países do mundo, mas na versão holandesa ele tem algumas… peculiaridades.

O tema são dois handymen chamados Mat & Pat. Handyman é o faz-tudo, uma pessoa cujo trabalho e realizar pequenos serviços práticos na casa, consertos, instalações, esse tipo de coisa. Tem um outro nome em português? Enfim, Pat e Mat são handymen que fazem tudo extremamente mais complicado do que o necessário, gerando grande desastre. É um tipo de humor pastelão que os saguis adoram. Não só saguis, na real. Eu, e o internacionalmente famosos hastagfeet (também conhecido como Érre) curtimos.

O humor é totalmente físico: o desenho originalmente não tem diálogos, o que facilita seu sucesso universal em tantos países. Só que na Holanda eles não são handymen, eles são vizinhos (Buurman) e há diálogos!

Eu acho tão tipicamente holandês eles serem (e se chamarem entre eles de) vizinhos. Porque aqui na Holanda, a profissão não é tão popular: holandês gosta de fazer tudo ele mesmo na sua casa. E cara, a real e que… bem… isso não necessariamente quer dizer que eles sejam… habilidosos. Quem já alugou casa na Holanda com piso instalado pelo proprietário sabe do que eu estou falando. Quem já olhou atrás da pia, ou tentou abrir uma porta de uma das casinhas de quintal por aqui, também. E isso torna a versão holandesa infinitamente mais engraçada. Dá para reconhecer os vizinhos “se ajudando” 🤣

Outra coisa são os diálogos, de uma pura holandesice destilada maravilhosa. Não sei quem são os dubladores, mas eles são geniais. Esse desenho me foi recomendado por uma professora na época em que eu estava aprendendo holandês, e eu repasso a indicação para você, seja para aprender holandês, dar risada ou só entreter seus filhos… Aqui na Holanda tem na Netflix.

Próximos passos na sua corrida: o que é treino polarizado

Eu já falei várias vezes que a parte mais difícil de aprender a correr como um esporte é correr fácil. Todo mundo sabe correr difícil, na “marcha alta”. Sim, na corrida a gente tem “marchas” como de carro, e o que acontece quando a gente é iniciante é que tendemos a correr todas as corridas e distâncias na marcha mais alta. Eu falei em mais detalhes disso na edição #16.

Demora um tempo para aprender a correr na marcha mais baixa. Por outro lado, é super benéfico para a saúde. Permite você correr mais, por mais tempo. O que se chama de “treino na zona 2” (as “marchas” são chamadas de “zonas cardíacas”) tem benefícios reais tanto para atletas profissionais buscando desempenho, quanto para atletas de fim de semana querendo se desenvolver no esporte, quanto para pessoas que só querem melhorar a saúde e se importam zero com tempos e recordes pessoais.

Por isso eu recomendo direto para todo mundo, iniciantes ou não, diminuir a marcha e correr mais devagar (se eu disser para “treinar na zona 2” a pessoa só fecha a aba do browser e me ignora). Na verdade, devagar ou rápido é relativo. Treinando na zona dois, o que acontece é que você vai ficar mais eficiente, e na real mais rápido com o mesmo esforço. Fantástico.

Agora se você quer se desenvolver no esporte, alguma hora é legal dar o próximo passo e passar a desenvolver as outras marchas também. Claro, primeiro tem que fazer esse treino de base. Mas e depois? Hora de começar a polarizar seu treino…

A ideia é a seguinte: você vai se desenvolver mais fazendo cerca de 80% dos seus treinos nas zonas baixas, 1 e 2, e 20% dos seus treinos nas zonas altas. E praticamente nenhum nas zonas do meio. Os 80% “fáceis” (baixo esforço) permitem você aumentar a quilometragem sem se machucar, e te dá oportunidade para se recuperar dos 20% de alto impacto. É impossível treinar o tempo todo no vermelho: você não vai ficar melhor. Você vai ficar machucado, e cansado, e reinar menos. Sabe o no pain no gain? Mentiram para você. Tem um monte de gain sem pain.

Olha eu vou te dar um exemplo usando gráficos do meus treinos. Olha o gráfico das minhas zonas quando eu comecei a correr, fim de 2018 e começo de 2019. Verde e amarelo são as zonas baixas, laranja e vermelho as zonas altas, vermelho vivo é absoluto máximo que meu coração consegue bater. Isso é uma versão percentual dos treinos:

Eu conseguia correr o quê? 15 quilômetros por semana? Agora olha o mesmo gráfico para o período que precedeu a minha meia maratona de outubro do ano passado:

E eu estava correndo ai uns 45 a 50 quilômetros por semana. Meu gráfico atual, nos últimos três meses:

Semana passada corri 56 km. Eu pessoalmente não conseguiria ter chego se tivesse continuado correndo o tempo todo na zona vermelha. Eu teria atingido um platô no meu desenvolvimento. Aliás, eu de fato atingi um platô no meu desenvolvimento lá em 2019. Por isso no meio do ano eu fui procurar uma treinadora. A primeira coisa que ela me disse foi: você tem correr mais devagar.

Eu fiquei inconsolável! Considerei até desistir de contratá-la. Como assim, COMO ASSIM eu pago uma pessoa porque eu não conseguia ficar mais rápido e ela diz para ficar MAIS DEVAGAR?! Eu fiquei revoltado (a Carla viu minha revolta com a treinadora e joga isso na minha cara até hoje). Felizmente eu baixei a crista, segui o conselho contra intuitivo da expert, polarizei meu treino e olha aí… funcionou.

Existe um bom tanto de embasamento científico pro que estou dizendo. Você pode ver esse TED talk sobre o assunto:

Existem muitos bons planos de treino, de iniciantes até avançado na internet (eu já aconselhei diversas vezes o do Ben Parkes, mas cara, fique à vontade para procurar um que você se adapte). Em todos eles você vai notar uma estrutura que se repete:

Um treino rápido, de alta intensidade. Um treino de longa distância, em velocidade mais baixa. Um ou mais treinos regenerativos, de baixa velocidade e duração mais curta. Três semanas aumentando a quilometragem, uma semana com uma diminuição na quilometragem (mas não para o nível de três semanas antes), repete até duas semanas antes da prova, quando há uma diminuição 9que se chama “taper”). Estou obviamente simplificando, mas a estrutura geral é essa. Depois da prova, corridas bem leves, apenas para recuperação ativa. Depois repete o ciclo para um próximo objetivo, aplicando as lições do bloco anterior de treino.

Se você já está um tempo correndo e parou de se desenvolver, ou está lidando com constantes lesões, talvez você não esteja estruturando seu treino de uma maneira polarizada. talvez você esteja seguindo os workouts, mas fazendo os seus regenerativos ou longos muito rápidos.

E se você está começando, diminua a velocidade e passe um par de meses fazendo treinos apenas em baixa intensidade antes de começar um estruturado com polarização. Se ficar meio chato, de vez em quando escolha um “alvo” – o próximo post, até chegar naquele sinal/farol, algo que esteja a uns 100 ou 200 metros e dá um pique até lá. Solta o pé, vai rapidão, corre que nem criança mesmo. Daí volta a fazer devagar, recupera o fôlego, dali a pouco faz de novo. Nem precisa contar precisamente tempo ou distância. Você já vai estar polarizando e se divertindo.

Me fala depois o resultado.

O problema de gamificar a vida

Uma das coisas legais de fazer essa newsletter é receber respostas interessantes e elaboradas. Uma delas me contou da dificuldade da pessoa em lidar com os “dias de ofensiva’ do Duolingo: a sequência de dias seguidos de prática. E eu já vi variações sobre isso de várias pessoas em vários apps. Cada um dá um nome “streak”, sequência, enfim: um contador que vai crescendo conforme você volta para usar o app.

Isso faz parte, claro da estratégia altamente efetiva de gamificação, transformar a vida num jogo. E isso não é necessariamente ruim. Funciona e é divertido. Funciona porque é divertido? Eu mesmo uso e já usei até com os saguis (transformando algumas partes de arrumar o quarto em jogo, ou alguma tarefa chata em uma competição). É uma tática válida e mais uma ferramenta no seu arsenal para melhorar sua vida. Como a criação de uma rotina pode ser uma ferramenta ( falei aqui). E como toda ferramenta, pode ajudar ou atrapalhar. Depende como você usa.

O primeiro problema: o score pode gerar ansiedade e pressão, e até desmotivar. Já vi muita gente reclamar do “run streak” do Headspace, um dos apps de meditação que eu uso. As vezes perder um número enorme de dias seguidos, tão perto de algum achievement, pode deixar a pessoa desmotivada e infeliz, quando, se for parar para pensar, perder um dia na prática não tem tanto problema assim. O progresso de todos os dias anteriores não é zerado, como o zero do score faz parecer. Voltar amanhã não quer dizer recomeçar do zero! Não é uma perda, não é uma interrupção, mas o ZERO depois de um número gigantesco faz parecer que é. E isso desmotiva, quando você pensa em tudo que já fez e, em vez de ficar feliz “nossa, com tanta prática seguida assim não faz diferença esse dia”, você fica triste “ain, vou ter que recomeçar tudo do zero”. Você não está recomeçando do zero!

E aí tem a tendência natural de todo ser humano de, ao ver um índice, querer manipular o índice, e não o que ele representa. É a lei de Goodhart:

“Quando uma medida se torna o objetivo, ela deixa de ser uma boa medida”

É esse tipo de pensamento que faz você andar em círculos no quarto por três minutos as 23:30 só para fechar um anel de exercícios. Ou repetir mecanicamente ações que não vão melhorar em nada sua vida, e em alguns casos até atrapalhar, só para ganhar um badge. Sim, gamificação ajuda e é um excelente instrumento, mas tem dia que é melhor para sua saúde ir dormir meia hora mais cedo do que fechar o número xis num app y para obter uma coleção de pixels coloridos que você pode postar para seus amigos na mídia social.

E isso é encorajado pelo próprio app, porque para seus criadores, não faz diferença se você abriu o app para praticar ou apenas para manter o score alto! Desde que você abra, tá bom! O objetivo do app é apenas capturar sua atenção, todo o resto é um meio para esse fim. Isso não é necessariamente ruim, desde que você saiba disso, e use com consciência e cuidado para o seu objetivo (que pode ser facilitado com o uso do app).

No caso do Headspace, depois de conseguir um run streak de um ano, eu propositadamente pulei um dia e zerei o score. E atualmente não deixo ele subir mais do que alguns dias. Se começa a ficar alto, eu medito com outro app, ou nem sequer medito naquele dia. Tendo consciência de que a regularidade real é mais importante do que o número, eu consigo driblar a manipulação e ainda usar o app para meu benefício.

A propósito: o Waking Up, app de meditação criado por Sam Harris, removeu o run streak. Foi bem interessante; no próprio Waking Up você pode ouvir edições do podcast one o Sam Harris entrevistas vários convidados feras na meditação. Um deles (esqueci o nome) chamou a atenção para esse aspecto problemático do “run streak’. O Sam disse que nunca havia pensado por esse lado, e que havia incluído o contador apenas porque todo app de meditação tinha. Nos próximos dias, ele simplesmente removeu o contador. Muita gente ficou brava, e ele fez uma das lições falando do motivo. Muito interessante.

E tem mais um aspecto. Fazer tarefas chatas sem recompensa imediata também é uma habilidade útil. Treinar a mente para ser capaz de fazer coisas entediantes traz resiliência mental, para continuar quando as coisas não estão a seu favor ou não são como você queria, mas tem que ser feitas do mesmo jeito, mesmo com a recompensa bem longe. Resiliência não é um dom. É uma prática.

De novo: gamificação é útil e eu uso. Não sou, em absoluto, contra. Funciona. Mas é uma ferramenta que exige uma certa perícia para se usar, e tem hora que o melhor é não usar, ponto. Levar as coisas com um pouco mais de leveza inclui não levar o jogo em si tão a sério. É legal e eu curto, mas é só um jogo.

Dica de filme: Der Untergang (A Queda)

Na edição #6, o livro que recomendei foi o segundo volume da biografia de A. Hitler, do historiador alemão Volker Ullrich. Eu ainda não terminei (a cirurgia atrapalhou a visão, e não tem audiobook. Prossegue, mas devagar). Mas para ficar no tema, eu assisti ao filme alemão Der Untergang (A Queda), que ficou bem famoso, nem que seja pelos memes que gerou (aquela cena do Hitler tendo um piti gigante que o pessoal legendou para assuntos aleatórios).

O filme é super bem feito e não romantiza nada ao relatar os últimos dias da queda do regime assassino que arrastou o mundo para uma insanidade coletiva. Os suicídios são mostrados como a saída covarde para evitar as consequências e uma das cenas mais terríveis, ainda mais porque de fato aconteceu, mostra o assassinato dos seis filhos de Goebbels, o infame ministro da propaganda. Os atores são excelentes, e a produção toda é de alta qualidade, com os alemães corajosamente enfiando a cara num capítulo tão vergonhoso da própria história. Tem qu3 ter vergonha e tem que olhar mesmo. Não é para esquecer ou atenuar. Aliás, nunca entendi esse argumento de “ah, a geração atual não tem culpa de nada, por que tem que ter vergonha do que os avós fizeram?”. Oras, a geração atual também não era nascida quando a Alemanha (ocidental) ganhou a copa em 1954 ou quando Goethe escreveu seus clássicos no século XIX. Se pode sentir orgulho do passado, pode sentir vergonha também. Além disso, isso serve como aviso para quem quer ser autoritário assassino hoje em dia: seus netos e bisneto vão ter vergonha de você.

A história toda é meio contada pelos olhos da secretária de Hitler, Traudl Junge, que testemunhou a coisa toda de perto. Há clipes da verdadeira Junge, já idosa, no começo e no fim do filme. A declaração final dela é devastadora. Eu vou parafrasear, porque isso não é spoiler, é utilidade pública.

Ela conta que não sabia de nada dos atos assassinos do regime ao qual servia, que era jovem e tola quando caiu no charme do monstro que virou seu chefe, e assim ela atenuava a sua própria consciência. Até que um dia ela passou pela placa memorial para Sophie Scholl. Sophie era alemã, branca e participou da resistência ao regime nazista. E foi executada por isso. Na guilhotina. E ela tinha praticamente mais nova que Junge e foi executada no mesmo dia em que ela foi trabalhar para o ditador. Foi quando a secretária percebeu: ser nova e tola não era desculpa. Ela poderia ter sabido. Outros sabiam.

Ela morreu com essa culpa. É única coisa que posso dizer em defesa dela. Melhor do que morrer sem se arrepender, me parece.

Enfim, é um bom filme, e tem na Netflix (ao menos na Holanda). Assista, se tiver estômago. Se preferir algo mais leve, tente a Noite dos Mortos Vivos ou algum outro filme de horror que tem o atenuante de ser sobre monstros imaginários.

Frase da Semana

“Stand up for what you believe in even if you are standing alone”

Sophie Scholl

Muito obrigado e até a próxima edição

Okay, vamos ficar por aqui nessa edição, como sempre deixando os assuntos que não couberam para a próxima, e como sempre te deixando meu sincero agradecimento por ter lido até aqui. Eu sei que sua atenção é um privilégio.

Deixo de novo o botão de apoio para você (e o lembrete que posso gerar um Tikkie para quem mora na Holanda). Com seu apoio eu posso mandar o nicho algoritmo passear e abordar numa mesma newsletter um filme alemão sobre nazismo, um desenho animado checo com dublagem holandesa e falar de gamificação da meditação… 🤷🏻‍♂️

E aproveito para dizer que curto muito receber seu contato, e não digo isso para gerar métrica, o algoritmo não tem como medir se você respondeu ou não. Eu falo porque eu de fato curto, aprendo (sim, você influencia a newsletter com suas respostas), me motivo, me emociono, e reflito contigo. Por isso também…

… muito obrigado, um grande abraço e até edição que vem!

Daniel – Ducs – Daniduc

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