As vantagens de se manter um diário (journal) para a sua vida

Eu mantenho um diário (ou, vá lá, journal – tem uma pequena diferença, mas eu combino os dois) desde 2018, e descobri ao longo desse tempo que foi uma das melhores decisões que tomei para minha saúde mental. Okay, vida. Assim como meditação (contei aqui), eu tinha uma certa… resistência com fazer um diário.

Coisa de adolescente né? “Querido diário”, bla bla bla… Ou então coisa para gênios da literatura e pessoas importantes. Anne Frank, Leonardo da Vinci, pessoas assim.

Olha, a real é que um journal é para todo mundo, adolescentes, gênios, gênios adolescentes (oi Anne), e todo mundo mais que quiser um instrumento para examinar e melhorar a vida. Vou te explicar como eu faço meu journal/diário, mas primeiro deixa eu falar sobre…

Qual a diferença entre journal e diário?

Um diário é um registro de coisas que ocorreram, um journal é um local onde você expressa ideias e pensamentos, e não necessariamente relacionadas com o período de tempo. Bullet Journal é uma metodologia de organização pessoal. E um log é um registro de operações e…

Ah, vou ser sincero: o nome não importa tanto. Nem o método. Não tem certo, não tem errado, tem o seu jeito (que inclusive vai mudando ao longo dos anos – meus diário/journal de 2018 é bem diferente do atual). O que importa é o benefício que ele traz para você e sua vida. Você pode até chamar seu diário de “Kitty”, desde que ele seja útil.

Diário é uma gaveta de pensamentos: Escrever alivia a sua cabeça

Sherlock Holmes disse para um espantado Watson que a mente é como um quarto, com espaço limitado e é um erro achar que as paredes desse quarto são elásticas. Okay, não é bem assim, obviamente, mas há uma clara vantagem em tirar pensamentos perdidos da cabeça e colocá-los no papel. E não só pensamentos – compromissos, coisas a lembrar, acontecimentos. Há um alívio e abre-se um espaço na mente, que não precisa mais ficar gastando energia para manter pensamentos na superfície ou ansiosa com medo de esquecer coisas.

Basicamente você para de carregar pensamentos na mão o tempo todo e coloca eles numa gaveta, prontos para serem retirados quando você precisar. Se precisar – mesmo que não precise, a vantagem do espaço mental criado já vale o processo.

Diário te ensina a pensar: escrever regularmente ajuda a estruturar pensamentos

Okay, muita gente escreve regularmente por diversos motivos: email de trabalho, tese de mestrado, mensagens no Zap (alguém ainda escreve ou todo mundo só manda voz?), textão no Facebook (alguém ainda usa Facebook?).

Mas um diário é diferente: você é a audiência. Não há regras, e você pode escrever mal, ou coisas embaraçosas, ou ser besta, ou falar com você mesmo sobre assuntos que ninguém mais está interessado mas te preocupam, sem medo de ser julgado por outros, sem ser analisado pelo olho robótico de um algoritmo que irá guardar e usar tudo o que você escreveu para te vender algo (ou mudar sua opinião).

E essa prática regular vai te ajudar a estruturar e entender seus pensamentos. Ideias soltas se conectam, sentimentos escondidos se mostram, passos lógicos falhos ficam expostos, padrões emergem, e é possível ir refinando e construindo em cima de uma base sólida no papel.

Com um diário você tira os pensamentos da cabeça e dá uma boa olhada neles do lado de fora…. e se não gostar do que ver, é só ajustar e reimportar para dentro. Tipo, uma oficina de pensamentos.

Aliás, isso é muito importante:

Um diário permite registrar – e avaliar sua vida

Tem momentos no dia que eu não tenho orgulho, e lembrar que vou escreve-los depois me ajuda a pausar e repensar, em vez de redobrar os esforços num caminho que sei que está errado. Registrar sua vida pode ser doloroso às vezes, mas é uma dor útil, e o a consciência de que você estar passando por ela e melhorando ajuda a suportá-la. Melhor do que dormir com aquela sensação constante de estar fazendo besteira sem nem estar consciente.

Outra coisa: relendo diários antigos, dá para notar causas e consequências que teriam passado batidas, padrões indesejáveis que estão te sabotando aparecem. Exemplo bem simples e óbvio: Em 2018 eu anotei: voltando para casa, parei para tomar um espresso na estação de trem (era 21h30). No outro dia: “fiquei vendo séries até as 4 da manhã”. No outro dia “fiquei gripado”. Hm… 🤔🙄😬 Ai em vez de ficar reclamando “não consigo dormir cedo”, eu passei a fazer uma série de mudanças na minha vida para acertar o sono. (Falta de sono compromete seu sistema imunologico, entre muitos outros problemas).

(Sim, vou fazer um post com as minhas estratégias de sono).

Passei a anotar meu sono também (hora de dormir e acordar).

Passei a ficar menos doente. (tem claro, outros fatores, como alimentação, exercício, e abundante àlcool gel).

E se eu não conseguir manter meu diário? Eu sempre largo 🙁

Sabe aquela sensação de “mas já é novembro? Onde foi o ano?”… o diário ajuda a responder. Com um registro da sua vida, você sabe onde foi o tempo. E pode apreciar sua evolução ao longo dele, com pequenas mudanças invisiveis no dia a dia, mas óbvias quando a gente aperta o botão de FF>>

Sim, mesmo que você tenha largado de fazer o diário por um tempo. O fato de você ter largado diz alguma coisa sobre você e o estado da sua vida. A lacuna faz parte do registro.

Em vez de pensar que você sempre larga o diário, pense que você está sempre mantendo o diário, com algumas interrupções. Você ter pulado ontem (ou a semana passada, ou dez anos desde que você era adolescente) não impede de fazer hoje. É tudo o mesmo registro, o registro da sua vida e pensamentos. Não precisa ser completo. Nunca vai ser completo.

Às vezes quando eu pulo uns dias, eu faço um resumo do que faltou e continuo. Se pulei muitos dias, nem isso. Eu só continuo a partir de hoje. Pronto, problem solved.

Como começar seu diário: papel, caneta, app?…

O seu diário vai mudar com você ao longo do tempo, e o formato que você decidir hoje não precisa ser mantido amanhã. Então não tem muita importância as regras ou nem mesmo meio. Escolhe o jeito que for mais fácil de começar, começa e vai ajustando.

Eu particularmente prefiro fazer a mão, com papel e caneta. Tem vantagens e desvantagens, mas de novo: se alguma hora eu achar que na real eu acho mais legal fazer num app, eu mudo e pronto, continuo a partir dali no app. No stress.

Vantagens de fazer um diário no papel

Eu acho mais divertido fazer no papel. Computador me dá impressão de “trabalho”, não sou um grande digitador, acho chato ficar mudando do teclado pro mouse (ou track pad, ou tela do celular). Com papel, eu tenho uma fonte (uh, letra) que é unicamente minha, imperfeita que seja, mas o estado da minha letra também é uma forma de registro. É pessoal e intransferível, parte do conteúdo, não apenas um formato.

Além disso, eu tenho a desculpa para usar minhas canetas tinteiro e tintas diferentes, sujar as mãos, criar algo tátil.

(Uh, sim, ainda se usa canetas tinteiro. São mais ecológicas, já que podem durar uma vida toda ou mais, e são muito gostosas de usar. Mas isso é assunto para outro post).

E eu não me preocupo muito com rasuras, erros, imperfeições, manchas e afins no meu diário. Na verdade, acho que isso dá personalidade, e é legal ver também ao longo do tempo minha habilidade em criar à mão se desenvolvendo. Assim como lacunas, erros e imperfeições fazem parte do registro.

Por outro lado, tem desvantagens, claro

Desvantagens de se fazer um diário no papel

São frágeis: não há backup. Perdeu, perdeu.

Não podem estar sempre contigo: isso não me afeta tanto: eu acho bacana separar um momento específico do dia para trabalhar no meu diário. Faz parte da minha rotina. Mas pode ser útil ter um app no celular, para registrar pensamentos que fugiriam depois.

Não são multimídia: com um app você pode adicionar (facilmente e de maneira barata) fotos. Sons. Registrar localização precisa. Registrar automaticamente o clima/temperatura.

Ocupam espaço na estante: ao longo dos anos, haja prateleiras… tem que ser carregados (literalmente) em mudanças.

Qual é melhor para fazer um diário: papel ou app?

O que for mais fácil pra você. O que te der mais prazer/vontade de fazer. E até os dois. Uai, quem tá te impedindo de fazer um no papel e ter outro no celular/computador?

Uma dica de app para fazer seu journal no celular é o Day One. Ele tem uma versão gratuita, e se quiser recursos mais avançados, uma versão Pro. A Carla (minha esposa), está usando e gostando bastante.

Como eu faço (atualmente) meu diário

Eu divido em semanas. Então eu pego uma folha, coloco o número da semana no ano. Daí eu escrevo uma lista dos eventos/coisas principais que tenho para fazer naquela semana. Bem básico, nada gigante. Tipo:

SEMANA 39

  • Aniversário do Sagui 1
  • Começa outono
  • Ballet Sagui 2
  • Natação saguis
  • Dia sem aula na escola (6a)
  • Correr 52K
  • Cai pagamento
  • Reunião com [Nome]

Você pegou a ideia. Aí eu uso duas páginas para cada dia. Escrevo nas duas a data e dia da semana. Ai numa página eu coloco alguns dados repetitivos: hora que acordei, tempo que dormi, temperatura, hora que apagamos as luzes dos saguis. Embaixo disso, eu anoto os compromissos/eventos que estavam reunidos na página da semana. REUNIÃO FULANO e BALLET SAGUI 2.

Ai anoto também coisas que marcaram o dia: Trump perdeu a eleição (ele perdeu), eu corri hoje (quanto e qual tipo de corrida), se tive algum sintoma físico digno de nota (hey, é 2020), se paguei alguma conta… coisas assim. Algo que me dê um raio-x do dia.

Na outra página, eu faço um pequeno relato do dia. Uma página mesmo, contando como foi o dia, e qualquer reflexão/pensamento relativo ao dia.

Se eu tiver tempo (ou paciência) no fim da semana eu faço um pequeno resumo da semana. A maioria das vezes não faço.

Complexo? Muita coisa? pode ser. Eu certamente não comecei assim. Eu comecei com uma página por dia e anotações rápidas, em lista.

  • Fui a uma reunião hoje
  • Levei sagui na escola
  • Almocei em casa

Esse tipo de coisa. E fui desenvolvendo. Soltando a mão. Escrevendo mais. Adaptando. Expandindo. Largando e recomeçando num contínuo processo, transformando mentalmente paradas em pausas. Aprendendo.

Eu sou grande fã do conceito de começar simples e fácil e ir evoluindo. Não acredito em estar tudo certo, perfeito, ou sequer super bom para começar. Eu acredito em apenas começar. Em melhora, não perfeição. E nisso, o diário é também um reflexo da sua vida: ele vai mudando e melhorando com o esforço que você põe nele, um pouquinho por dia.

O jeito mais simples de começar o seu diário

Não é difícil – ou a menos não precisa ser. Se está difícil começar, altere as regras até ficar fácil. Não tem caneta chique ou cool? Não tem um caderno designer com papel japonês? Não tem tempo? Não tem coragem? Use isso tudo a seu favor. Altere a perspectiva. Altere as regras do jogo. É o SEU jogo, você é o único participante, você faz o que quiser com ele.

Okay? Okay. Agora…

Pega um caderno. Qualquer caderno. Pega uma caneta. Qualquer caneta que tiver sobrando. Abre o caderno. Põe a data.

Escreve… vamos ver. Vou te dar duas alternativas: Você pode fazer uma, outra ou as duas.

Alternativa 1: Escreve porque você não começou um diário até hoje e duas ou três coisas que você acha que podem te ajudar a fazer um diário, ou que um diário pode te ajudar a fazer Ou se começou e largou, escreve que está continuando o seu diário e duas ou três coisas que você achava legal ao fazer seu diário. Pode tirar sarro do seu diário adolescente (eu guardava papel de sonho de valsa dentro!), mas reconheça que era divertido – e agradeça a sua versão adolescente por ter preservado as memórias de que você era.

Difícil ainda?

Alternativa 2: escreve três frases com três coisas que você fez hoje. E uma que quer fazer amanhã. Val qualquer coisa – até “tomar café da manhã”. Ou estar vivo.

That’s it. Três frases. Você consegue três frases. Não? Uma então.

Repete amanhã. ❤️

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