Newsletter do Ducs #28: dúvidas sobre veganismo, vacina na Holanda, o problema do modelo de anúncios (e uma alternativa) como consolar alguém independente de religião

E aí? Tudo bem contigo?

Por aqui o verão chegou e essa semana tivemos calor escaldante de até 27 graus! Quase cozinhei! A Holanda está empolgada em aproveitar o verão que se aproxima. Felizmente o governo (final-fucking-mente) resolveu dar um gás na vacinação e nas últimas semanas começou a vacinar geral. Eu e Carla já marcamos a nossa para semana que vem (o mais cedo que dava).

Alô, força aérea? Queria reportar um objeto voador não identificado. Sim. Durante o dia. Amarelo e brilhante. Bem no meio do céu! E ele está emitindo calor! O que é isso? Como assim você acha que é um fenômeno meteorológico normal?

Nessa edição eu vou continuar com temas polêmicos e irei responder perguntas comuns que me fazem quando descobrem que sou “vegano”. Bom, estritamente vegetariano – vegano envolve toda uma posição política que vai além da nutrição, e não me encaixo tanto nesse rótulo. É meio confuso mesmo, tanto que falei sobre essas definições na edição #18. Eu vou adotar o mesmo formato que usei quando falei de ateísmo na edição passada: eu não quero te converter, convencer ou mudar sua dieta. Eu vou contar sobre a minha experiência em viver apenas de plantas. Você pode ler enquanto come um churrasco ou toma um copão de leite e dizer para você mesmo com a boca cheia “mas esse Ducs é um mala mesmo, me passa a manteiga!” Prometo que não vou ficar minimamente bravo. Porém, espero também que ache interessante ver outras experiências diferentes da sua.

Mas se esse negócio de viver de planta não te interessa, não tema, tem outros temas (hã? hã? Pegou? Tema/tema? har har). Tem dica de livro, como consolar alguém sobre a perda de um ente querido sem usar religião. E temos a companhia um do outro. Bora partir em mais uma newsletter?

O que já rolou na newsletter

Uma das vantagens de eu fazer uma Newsletter na minha própria plataforma é eu poder determinar o formato e duração do conteúdo que crio para você, sem precisar te pressionar para focar sempre “up to date”. Eu não preciso girar a roda do algoritmo das mídias sociais, e meu conteúdo não expira nem fica enterrado. Está tudo aqui, organizado com tags, com busca e links, para você ler no seu ritmo. E eu posso criar conteúdo que não é descartável. Tem muita dica legal nas edições passadas que valem sempre.

Para te ajudar, eu sempre incluo links para as três últimas edições, mas dali você pode pular para qualquer outra, desde a número 1. Prefere tudo listado por ordem de publicação? Tá aqui. Quer ler sobre um tema específico? Cada edição é marcada com tags dos assuntos que trata. Clica numa tag e verá uma lista de edições que falam dele. Por exemplo, criar filhos na Holanda. No rodapé do site (bem no final) tem uma lista das tags mais usadas. Além disso, eu criei uma estrutura que torna previsível o link de cada edição. A dessa aqui, a edição 28, é daniduc.net/newsletter-28/. Copia e cola e muda o número para a edição que você quer. Nada disso serviu para você? Tem busca bem fácil, no cabeçalho (e de novo no menu lateral).

Tá difícil de ler? O site todo tem um botão no formato de lua/sol que inverte as cores (ativa/desativa dark mode). Se não achar, aqui está de novo:

Okay, agora os links para as edições mais recentes;

  • Eu fiquei particularmente feliz com o resultado da Edição #27, que você pode ler AQUI. (como funciona a saúde na Holanda, dúvidas sobre ser ateu, tipos de corrida, dicas de livro e música, reflexão que mudou minha vida, receita de um smoothie (edição dupla))
  • Perdeu a edição #26? leia AQUI. (o problema de gamificar a vida, carimbos legais para melhorar seu journal, o próximo passo na sua corrida, holandês, filme e desenhos)
  • A edição #25 (leia AQUI) foi dedicada a criação de filhos aqui na Holanda, falando sobre cultura, língua, escolas, modo de vida, educação e mais..

Para fazer parte da comunidade, me mandar mensagens e entrar em contato comigo, garantir que vai saber quando sair nova edição e ter notícias relevantes e ainda receber uma versão em PDF da Newsletter (baixou é sua, ninguém tira do ar), se inscreve na lista aqui;

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O problema do modelo de anúncios e uma alternativa: conteúdo feito para você, mantido por você

Viver de conteúdo é um desafio. Para justificar o tempo, custos e trabalho investido na produção de algo de qualidade, é preciso ter um retorno financeiro. Faz sentido, certo? Nisso, criadores de conteúdo não são diferentes de qualquer profissão. A questão é: como gerar retorno o suficiente? Um modelo que existe desde os tempos da TV aberta: publicidade. A Internet levou esse modelo a níveis absurdos. Na TV aberta, a abordagem era de amplo espectro, manda para a geral e vê quem reage. Nada eficiente. Com a internet, é possível mandar o anúncio certo para a pessoa específica. Super eficiente. Mas tem um custo… para te dar o anúncio certo, os sites tem que te rastrear, vigiar, seguir até no banheiro (confessa que você já levou o celular pra casinha e ficou navegando em mídia social). O resultado é bizarro, parece que estão lendo sua mente (ontem eu pensei do nada “ah, a minha sagui mais velha está indo para escola sozinha, saindo com as amigas, tá na hora de comprar um chip de celular para ela”. Destravei o meu celular para ir olhar o site da minha operadora, e o Twitter. estava aberto. Antes que eu pudesse mudar pro Safari, reparei que tinha um anúncio. Da Vodafone. Vendendo chip. Tirei até print.

Isso é estranho, mas o modelo de anúncio causa outros problemas. Você só ganha se a pessoa vê ou clica no anúncio. Com isso, fazer a pessoa ver e clicar passa a ser uma prioridade. A sua leitura fica em segundo lugar. Eu preciso GARANTIR que você vai ver e de preferência clicar no anúncio. Eu preciso te interromper. Na TV aberta ao menos você podia ir fazer xixi na hora da propaganda. Agora os sites fazem de tudo para que você não ignore o anúncio. Desde por banners, pop ups, links no meio do texto, vídeos com som para chamar sua atenção, e anúncios que te seguem pela internet toda. Funciona… mas atormenta.

Pressão para quem cria e quem consome

Além disso, quando o modelo de anúncio dá certo, a pessoa clica e… vai embora do site do criador. Mau. Isso quer dizer duas coisas: primeiro, eu preciso fazer de tudo para que eu consiga pessoas novas o tempo todo, e garantir que essas pessoas voltem compulsivamente. Daí a pressão em cima de criadores para tornar o conteúdo superficial, descartável e constante. E a pressão em cima dos leitores para ficar up to date, checar sem parar as atualizações e de maneira geral te prender no site ou app (mesmo quando você não quer) e te direcionar para cliques e compras (mesmo quando você não precisa).

O resultado dessa mistura é um ambiente tóxico de alta pressão, onde o objetivo final é capturar, obter e monetizar sua atenção e pensamentos. Isso afeta tanto quem produz quanto quem consome conteúdo. Criadores reproduzem fórmulas baseadas na sua eficiência em obter novos consumidores, pressionam a audiência sem parar e acabam tendo um esgotamento criativo e mental (burn out) devido ao ritmo incessante da máquina de anúncios governada por algoritmos automatizados (robôs não tem burn out). E os leitores, que só queriam ter um conteúdo para divertir e informar, aprender e curtir, se veem observados, analisados (com ou sem permissão), pressionados e manipulados, roubados do bem mais precioso que um ser humano pode ter: a sua atenção.

E se houvesse uma alternativa?

Não estou condenando ninguém, veja. Eu mesmo já vivi desse modelo. O Ducs Amsterdam tem banners e links afiliados até hoje. Já fiz blog com adsense, já fiz parceria para promover empresas, e reconheço que o modelo funciona, contas precisam ser pagas, assim é o mundo adulto. Propaganda não é necessariamente ruim, marketing não em si ruim. Não é por aí que estou indo. O que estou dizendo são duas coisas: primeiro, esse modelo hiperotimizado em particular de anúncio cria problemas reais e segundo, será que não tem uma alternativa? Será que tratar o leitor e sua atenção como produtos a ser monetizado e os algoritmos como autoridades finais de como eu criamos e consumimos a criação é a única saída para viver de criação?

Eu resolvi testar uma alternativa. Nessa newsletter. Onde eu não coloco anúncio, nem uso patrocínio, focando no que agrada ao leitor, não o algoritmo ou sues mestres e anunciantes. Esse é o trato que eu estou oferecendo: você apoia a newsletter diretamente, e em troca, eu faço ela diretamente para você. Pode ser que esse experimento não dê certo. Pode ser que de fato a única maneira seja o modelo atual amplamente adotado por mídias sociais e Google, e eu tenha que voltar para ele. Como disse, não é necessariamente ruim, e tem gente que prefere ver anúncios do que pagar diretamente. Mas eu vou tentar a alternativa. Eu estou te oferecendo a oportunidade de escolher algo diferente. Você pode apoiar a Newsletter com uma quantia determinada por você, mensal ou avulsa (toda vez que quiser). Como agradecimento, seu nome sai na edição (sobrenome abreviado – caso prefira que ele apareça, me manda uma mensagem). Para apoiar a newsletter, use o botão abaixo:

Se você mora na Holanda e prefere um Tikkie, me manda uma mensagem que te passo o link. Muito obrigado por fazer parte desse experimento. Não somos a maioria, mas somos a vanguarda.

Vou me vacinar contra COVID (vacinação na Holanda)

Eu havia comentado na edição #22 sobre a vacinação na Holanda estar lerda, tendo um início tardio (foi o último país da UE a começar a vacinar) e desorganização durante o inverno (chegou a deixar vacinas vencerem e serem desperdiçadas) e começo da primavera. Com o verão se aproximando, os holandeses se organizaram melhor e começaram a acelerar o passo. Cada dia ou dois eles chamam pessoas de um ano diferente, avançando dos mais velhos para os mais novos. Você recebe uma carta convite para marcar sua vacinação, mas nem precisa esperar. Se o seu ano for chamado, pode ir correndo no site do governo e marcar lá mesmo. Se preferir fazer por telefone, liga no 0800-7070 (obviamente esse número é válido na Holanda).

Eu fui chamado (aê galera da safra ’74, é nóis veterano!), e já marquei de cara. Minha cartinha chegou uns dias depois. Curiosamente, o governo disse que, por eu ter tido COVID há menos de seis meses, eu só precisaria de uma dose. No começo eu achei que eu não teria opção para receber a segunda, mas descobri que se você ligar no número que dei, pode pedir a segunda dose e eles dão sem questionar. Embora eu acho razoável a medida, já que, não havendo estrita necessidade nesse caso, essa segunda dose pode ser usada para vacinar outra pessoa mais rápido. Se você discordar, como disse, basta pedir.

Ainda resta uma questão, a mais feita para mim: qual vacina irão me dar? Eu confesso que fiquei um pouco surpreso com a quantidade de pessoas me questionaram isso. Não é como se eu pudesse pedir para ver o menu de vacinas e escolher, e teria de aceitar a que me mandassem. Mas enfim, no email me informaram que será BioNtech/Pfizer ou Moderna. Você pode ver quais vacinas estão sendo aplicadas para quais grupos nesse site do governo holandês.

Depois eu conto como foi e se tive efeitos colaterais.

Falando de veganismo (ou vivendo só de plantas): dúvidas frequentes

Esse é outro tema que gera muito interesse no Instagram, e na época em que eu compartilhava meu dia a dia no Stories, o pessoal me enchia de perguntas sobre eu ser estritamente vegetariano (não consumir produtos animais), ainda mais com o nível de treino que eu faço (estou longe de ser um “super atleta”, mas estou treinando para uma maratona e depois uma ultramaratona, como contei na edição #16. Isso é um monte de corridas e treinos de apoio). Essa semana eu voltei ao Stories e perguntei se o pessoal queria uma seção de respostas nos moldes que fiz sobre ateísmo da edição passada. Deu uma vitória esmagadora de “SIM QUEREMOS”. Na real acho que só sete disseram “não, unfollow”. Então vamos.

Antes de começar… deixa eu repetir. A minha ideia não é te converter a nada. Não converti nem meus filhos (não são veganos/estritamente vegetarianos, e curtem um copão de leite, queijo, peixe e uma ocasional carne moída), que dirá você. Não vou dizer que se você come carne ou consome produtos animais então você é um monstro horrível que não se importa com os bichinhos ou com o planeta, ou que vai morrer daqui dez segundos de congestão cancerígena bla-bla-bla. A vibe não é essa. Aliás, esse tipo de conversa me afastou do vegetarianismo estrito por anos, de tanta birra que me dava. Me dá até hoje. Ninguém ganha argumento, converte pessoas ou faz amigos se dizendo “eticamente superior”. Ah, vá caçar sapo… quer dizer, plantar cebolas.

Nesse princípio, também não vou entrar no pique de “estudos mostram” porque, de boa, dá para passar o resto da vida cada um de um lado caçando “estudos” para justificar a sua própria escolha e dizer que a do outro está errada. A real é que a gente decide primeiro o que quer seguir e daí sai caçando “estudos mostram” para justificar o que já decidiu. Se você não quer comer bichos ou produtos vindo de bichos, seja por qual motivo for, vai achar estudos/vídeos/notícias que mostram que isso é uma excelente ideia e que consumir produtos animais é horrível, e vice-versa. Você passa a ver tudo sob essa ótica de confronto. E termina cada um de um lado puto da cara com o outro lado, sem nenhum diálogo ou curiosidade ou aprendizado. E hey, eu me interesso por ideias e razões mesmo quando não concordo, ou sigo ou adoto elas para mim. Recomendo.

Então, se a ideia não é justificar minha escolha nem atacar quem escolhe diferente, seja eticamente, seja racionalmente, qual que é a ideia então, Daniduc?

A ideia é esclarecer como eu consigo viver de planta uma vez que essa foi a minha escolha. Pode te ajudar se essa for também a sua escolha. Pode te entreter e te dar conhecimento de um outro ponto de vista, mesmo que você não adote nem concorde, caso não seja a sua.

Bora?

“Você é vegano? Estritamente vegetariano? Que confusão é essa? E você não comia ovo?? What?”

É, eu sei. É uma zona mesmo. Na edição #18 eu dei uma explicação sobre os termos. Pode ir lá ler se quiser. Em julho de 2019 eu virei vegetariano (parei de consumir carne), em dezembro de 2019 eu virei estritamente vegetariano (parei de consumir produtos de origem animal, incluindo ovos e laticínios). Eu voltei a comer ovos e queijo no fim de 2020, mas parei de novo agora em 2021, retornando ao estritamente vegetariano.

E por que não vegan ou vegano? Porque vegano envolve uma filosofia de vida que vai além da nutrição. Eles são bem estritos com a definição, mas inclui não usar nenhum produto animal, mesmo objetos feitos de couro, são contra testes e pesquisas em animais e por aí vai. Existem aspectos da filosofia vegana que eu não necessariamente sigo, então digo que sou “estritamente vegetariano”. Ou “plant based”. Ou “plant powered”. Ou, quando quero simplificar, “vegano” mesmo, porque é um termo que as pessoas já conhecem e facilita a vida quando você não precisa entrar em detalhes, tipo num restaurante “tem opção vegana?” (garçom rolando os olhos).

Além disso, eu como produtos na versão integral, evitando ao máximo produtos refinados, como farinhas brancas, e açúcar adicionado (exceto no contexto de corrida, que é toda uma outra história para uma outra newsletter). Fibras, eu curto fibras.

“Mas sem produto animal, você não fica desnutrido?”

“Estudos mostram”… não, tô brincando. Olha só, para você se nutrir você tem que consumir toda uma gama de alimentos variados, ricos em nutrientes. E você consegue fazer isso somente com plantas, certamente. Requer um certo empenho, tanto para aprender quais alimentos comer, quanto para desenvolver seu paladar e aprender a cozinhar, apreciar e descobrir uma nova gama de sabores, texturas e alimentos.

A real é que você pode comer muito mal e ser desnutrido sendo vegano ou carnívoro. Se a sua dieta é baseada em alimentos densamente calóricos, mas pobres em fibras e nutrientes, você vai ser desnutrido, não tem carne ou leite ou ovo que resolva. E certamente tá cheio de junk food vegana também.

Olha, se você come pão com manteiga e presunto, café com leite de manhã, arroz feijão e bife no almoço e na janta todo dia, e salada para você é alface tomate cebola, e daí você só tira o bife, a manteiga e o leite e diz “pronto, tô vegano”, de fato sua dieta, que não era a mais variada e ampla antes, vai ficar incompleta. Mas não foi isso que eu fiz quando virei estritamente vegetariano. Aliás…

“Por que você virou vegano/estritamente vegetariano?”

Como eu tava falando na resposta anterior… eu era muito mais desnutrido quando eu comia carne. Muito, e tenho o histórico de saúde, exames e energia para mostrar. Curiosamente, era obeso também. E eu cansei disso, claramente o que eu estava fazendo não estava funcionando, e resolvi tentar algo diferente (porque estava desesperado).

Mas eu não passei a ter uma boa nutrição porque parei de comer carne, ovos e laticínios. Eu passei a ter uma boa nutrição quando passei a me interessar por isso, a aprender sobre o assunto, a testar alternativas, a cozinhar de maneira mais variada, a expandir meu paladar em vez de ficar preso num estilo só porque fiz isso minha vida toda, foi assim que eu cresci e esse é meu destino ou genética.

Inclusive eu nem comecei essa jornada cortando nada. Eu comecei acrescentando coisas. Vegetais, no caso (que eu não comia o suficiente, e, não, macarrão e pão branco não contam como vegetais).

Eu fui procurando experimentar e comer, e ver os efeitos. Tirar a carne (e depois laticínios e ovos) também me forçou a expandir e ampliar o que eu comia no reino vegetal, buscando suprir as minhas necessidades nutricionais sem ter aquela “rede de segurança” mental de “qualquer coisa eu como um bifão com ovo e tá tudo certo”. Eu tinha que de fato entender o que eu estava fazendo.

O resultado disso é que passei a me sentir muito melhor. Não só porque eu estava suprindo deficiências nutricionais que eu tinha, como eu notei que produtos animais não me faziam bem. Eu prestei atenção como eu me sentia, e a real é que me pesava, e dependendo do que era, me sentia mal já logo depois de comer. Na hora era uma delícia, mas logo depois…

“Ah, Daniduc, eu não sinto isso não”. Okay. Eu sinto. Só acontecia que eu acabava que a vida era assim mesmo! A falta de energia, a sensação de estar pesado depois do almoço, eu achava que isso era normal, parte da vida. Quando removi os produtos animais que eu vi que não era. E é fácil confirmar para mim, inclusive eu fiz. Só mandar uma prato de carne moída, ou tomar um copo de leite e boom. Dúvida esclarecida. Mesmo quando voltei a consumir ovos e alguns queijos por uns meses, eu senti diferença no meu bem-estar. É um teste simples: eu transitei para ser estritamente vegetariano, e vi os resultados em mim. Eu reintroduzi alguns alimentos animais, e notei o que acontecia. Com isso, fiquei confiante de que estou no caminho certo. De novo: eu falo por mim, claro. Cada um deve fazer seus próprios testes e escolhas.

“Mas e a proteína?!”

Hah, e a proteína. Olha, tem proteína o suficiente no reino vegetal. Pergunta pro gorila. Não, mas a sério agora. Sim, dá para suprir suas necessidades diárias de proteína variando as fontes vegetais. Eu sei, eu perguntei para a minha nutricionista (e li livros sobre o assunto também. Livro, não sites apenas). Grãos e derivados: feijão, que aliás, existe em múltiplas cores e formatos, amplamente disponíveis aqui na Holanda, tem uma lenda de “não tem feijão na Holanda” que juro que não sei de onde que saiu, lentilhas, grão de bico, ervilhas, tofu, tempeh (primo fermentado do tofu), leite de soja. Aí tem os cereais, como aveia, arroz, quinua, tem alga, como a espirulina (uma alga), castanhas, sementes, como chia. É importante combinar e variar, especialmente consumir de grãos e cereais.

Mas e atletas, conseguem tirar toda proteína só de plantas?

A resposta curta é “sim”. A resposta comprida é “claro que sim”. Pergunta pros incontáveis atletas veganos, estritamente vegetarianos, plant based ou seja lá o nome que dão para “eu consumo só plantas e vamos fingir que alga é planta”. Eu fiz biologia, eu sei que não é. Nem cogumelos, aliás. O ponto é: tem um MONTE de atleta de alto nível que não consome produtos vindos de animais. Dá um google.

Ah pode ser que alguns (não todos) deles usem suplementos. “Ahá, eu SABIA!”. Uh, suplementos veganos. “EU SABIA”. Uai, atletas carnívoros suplementam também, já ouviu falar de whey? O ideal para ambos é tirar tudo da alimentação, mas dependendo do nível, um suplemento pode ser útil para complementar (daí o nome “suplemento”).

Quando passei a treinar mais intensamente, eu passei a usar suplemento, mas em períodos de baixa no treino, eu posso suspender.

De novo, o ponto não é convencer ninguém a parar de consumir produto animal. O ponto é dizer que é um fato bem estabelecido que é possível viver apenas de planta de maneira completa, mesmo que você seja atleta ou treine bastante. Foi o que eu fiz.

“Ah, mas e a B12?”

O que seria de uma conversa sobre veganismo sem a B12, né? Verdade. A b12 é uma vitamina importante, e verdade, não dá para obter uma dose suficiente dela apenas de fontes vegetais. Daí existem suplementos. Desde pílulas até alimentos de origem vegetais fortificados com B12.

Antes que você entre na pira de dizer “sabia que vegano era tudo hipócrita, olha eles matando bicho para tomar pílula de B12” (a gente tinha combinado não entrar nesse tipo de julgamento, lembra?), deixa eu dizer que se bem-estar animal, ou o preço ambiental da criação animal, são as principais razões para você ser vegano, é bem simples: muitos dos suplementos tanto em pílulas quanto em alimentos fortificados usam B12 sintética. Não precisa procurar algas e bactérias e tal. E no fim das contas, suplementar vitaminas que seu estilo de vida não provê por qualquer motivo não é algo tão bizarro assim. Por exemplo:

Eu tomo suplemento de vitamina B12 e D (receitado pelo meu huisarts, médico da família. expliquei o sistema de saúde na Holanda na edição passada). Quase ninguém questiona suplementar vitamina D, mesmo a gente sendo capaz de sintetizar com exposição ao sol. Eu encaro suplementar a B12 da mesma forma que suplementar a D. Meu estilo de vida não provê suficiente de vitamina D, mesmo sendo uma pessoa que curte (e sempre curti) estar ao ar livre, e fazer isso o máximo que consegue (incluindo abaixo de clima difícil). Ei, eu moro na Holanda! Sol aqui é item de luxo. Se eu acho okay suplementar a D, não vejo porque eu seria contra suplementar a B12, já que tenho outros benefícios pessoais não consumindo produtos animais. Porque esses produtos são um pacote: para ter a B12 eu tenho que ter os outros impactos que notei na saúde. Se posso ter B12 sem pagar esse preço, hey, eu topo.

E depois dos cinquenta anos, a absorção de B12 diminui, e é bem possível que eu precisasse suplementar anyway, carne ou não carne (estou com 47).

Relembrando: a recomendação é sempre consultar sua médica e ver como está o seu caso, com exames de sangue, se for necessário. Siga a orientação dela. Foi o que eu fiz.

“Mas a B12 e tal não prova que evoluímos para comer carne?”

Ah, uma pergunta que tenho alguma autoridade para responder (fiz biologia, e evolução era uma área de particular interesse meu). Eu acho um pouco estranho esse argumento. Nós evoluímos em um ambiente e estilo de vida que não existe mais. O grande segredo é simular aspectos desse ambiente, mas sem necessariamente adotar um estilo de vida extinto. Correr, por exemplo: evoluímos para correr, e nos exercitar, e exercício é uma boa ideia. Mas nem por isso preciso me limitar a correr no máximo 10 km no dia atrás de uma presa. Eu posso usar tênis, e relógio com GPS e monitor cardíaco, ou ir para uma academia, ou usar pesos, para dar o exercício que meu corpo precisa numa maneira que permita eu ter as vantagens do nosso estilo de vida atual também. É meio que por aí o lance da alimentação. Eu posso usar os recursos atuais de nutrição, supermercados, disponibilidade de alimentos diversificados para ter uma dieta completa sem pagar o preço que comer produtos animais cobra de mim. Porque o que era uma boa troca no paleolítico, quando poucos viviam depois dos cinquenta para se preocupar com doenças de meia idade, carne era um luxo ocasional que dava um boost de nutrientes e calorias sem estar tão presente que iria causar problemas.

Além disso, nunca vi ninguém parar de comer sorvete porque nós não evoluímos para isso, e aposto que tem pouca gente que come insetos, que nós evoluímos para comer também. Sabia?

A imagem do homem das cavernas vivendo de caçar mamute é mito. O Homo sapiens sapiens vivia basicamente de planta e inseto, com uma caça eventual. O neandertal sim, tinha uma dieta mais baseada em carne e caça, vivia no norte, em áreas com clima mais frio e menos vegetação.

Sabe o que aconteceu com o neandertal? Foi extinto pelo primo mais flexível. Nós. Sapiens sapiens.

Nós evoluímos para sermos onívoros, ou comer o que a gente achar pela frente. Isso queria dizer: plantas, insetos, bichos, o que viesse. A real é que a imensa maioria era planta. Por quê? Planta não tem perna para fugir. Okay, sério. Planta era o alimento mais abundante ao nosso redor, e muito mais fácil de coletar. Plantas e insetos. A fonte de B12 vinha principalmente de insetos. Comer carne era luxo ocasional, não a sustança do dia a dia. Caça é negócio difícil, arriscado, e mais falha do que dá certo. E isso vale até para super predadores, como leão ou tubarão branco. Na escala evolutiva, nós nos adaptamos a comer na maioria plantas, insetos e um boost adicional e ocasional de carne. Leite veio só muito depois, na revolução agrícola. Nós não evoluímos para comer um montão de carne, certamente não todo dia. Na nossa sociedade, comemos muito mais carne (sem mencionar outros produtos como leite de outros animais) do que somos adaptados para fazer.

Eu não preciso necessariamente comer produtos animais para ser saudável. De novo: independente de teorias evolutivas eu fiz o teste e sei que em mim estou mais saudável e me sinto melhor agora. Mas a título de explicação, eu falei sobre a evolução humana (que estudei na bio). Sim, na época do caçador coletor eles tinham de consumir algum animal (em geral insetos). Caçadores coletores que comiam carne tinham uma vantagem porque era um concentrado de nutrientes e calorias que poupava várias horas de trabalho na coleta, então quando vinha, era muito bem-vindo. Caçadores coletores não tinham um supermercado abastecido com os mais variados alimentos para compor uma dieta completa sem carne, nem tinham internet e livros e nutricionistas e médicos e cientistas para poder aprender como comer sem carne, caso eles decidissem que não queriam comer produtos animais por qualquer motivo, seja qual for.

Eu até acho carne gostoso, queijo certamente é uma delícia, mas simplesmente o prazer imediato que tenho consumindo isso não compensa como eu me sinto depois e no geral. E comendo apenas plantas eu vejo benefícios que não via antes. Eu me sinto infinitamente melhor comendo apenas plantas (e fungos e algas, okay). Além disso, eu curto o aprendizado, e o desafio de variar e descobrir meu paladar amortecido por anos de uma alimentação com gama reduzida de sabores (gostosos, mas ainda assim limitada) que estavam me deixando doente.

Você não sente falta da carne, leite? Não é chato comer só salada?

Olha, não, viver sem comer produtos animais não é um sacrifício. É uma jornada de prazer na comida. Não, eu não “vivo de salada”. Tem infinitos pratos que dispensam produtos animais, pratos saborosos, complexos, simples, azedos, doces, salgados, amargos. Eu comi minha vida toda arroz branco… que hoje acho totalmente sem graça, comparado com uma quinua, ou um milhete, ou mesmo vários tipos diferentes de arroz integral, preparados de diversas maneiras, como acompanhamento ou como ingrediente de outros pratos. As possibilidades dentro do reino vegetal são absurdamente grandes, variadas, ricas, e hoje em dia uma refeição me deixa feliz não apenas na hora que estou consumindo, mas depois também. Passo o tempo entre refeições satisfeito e nutrido, em vez de pesado e lidando com a digestão. E passo as refeições feliz da vida, comendo coisas gostosas que eu simplesmente ignorava.

Foto: Carla Duclos

Eu disse milhões de vezes que não quero te converter, e a essa altura deve estar bem claro que é verdade. Inclusive, se você quer continuar comendo carne e consumindo produtos animais… pode ficar com a minha parte. Eu to bem mais feliz no novo caminho. Comida é prazer, e eu não estou abrindo mão do prazer de comer. Eu estou expandindo ele.

Continuo?….

Hm, essa seção já está grande e temos ouros assuntos. Tem muito mais perguntas. E a soja? E o queijo, como que dá para ficar sem queijo? Mas exatamente o que você come, dá umas receitas! Como no caso do ateísmo, sempre dá para voltar e aprofundar. Se você achar isso uma boa ideia, me manda um email (para quem está inscrito na lista de email). Se prefere não, me fala também. É bom saber, e se eu notar que você não curtiu, a gente fica por aqui. Se quiser saber mais, me fala. Se ninguém falar nada, aí vou jogar uma moeda (veja a dica de livro dessa edição).

Dica de canal vegano

O que mais tem na Internet é recurso para quem é vegano ou estritamente vegetariano, desde receitas até informações sobre nutrição e saúde, como fazer a transição, é tipo um mundo a ser descoberto. Mas para te ajudar, aqui vai a dica de um canal em português que a Carla descobriu e segue:

Dica do livro que primeiro me inspirou a virar estritamente vegetariano

Hey, calma, eu tenho outra dica de livro nessa edição, aquele sobre matemática. Está mais para baixo. Esse é um bônus. É o livro do lendário ultramaratonista Scott Jurek, que é vegano (vegano mesmo) e escreveu um livro de memórias e receitas, chamado Eat & Run. Foi o primeiro livro/pessoa que me inspirou a tentar uma dieta estritamente vegetariana, em vez de tentar me amedrontar ou chantagear. Jurek me mostrou que não só é possível ser um atleta (de alto nível ainda0 a base de plantas, mas inclusive poderia ser uma boa ideia. Eu testei, e deu no que deu.

Sim, é um livro de corrida, especificamente ultramaratona, que é um assunto que me atrai. Mas também é um livro de história de vida, que te leva numa jornada, e eu adoro isso (sou fã de biografias, autobiografias e memórias). De brinde, tem receitas veganas!

Na Amazon, em inglês. (Nenhum link dessa newsletter é afiliado – não ganho absolutamente nada se você clicar ou usar esse link).

No site do Jurek tem receitas também (vai na seção “eat”).

Consolando alguém independente da pessoa ter ou não religião

Sábado passado, dia 29 de maio, foi aniversário do meu irmão. Ele faria 43 anos. Só chegou aos 37. Faleceu subitamente do coração em 2015. Um dos maiores traumas da minha vida. Eu desmoronei completamente. Foi bem ruim. Eu fiz um post no Ducs no dia seguinte (aviso: obviamente é um post triste).

Durante esse momento, muita gente veio me consolar. E muitas dessas pessoas usaram religião. Eu agradeci, mesmo eu não sendo religioso. Eu entendia a intenção e sentimento da pessoa, no intuito de me consolar e ajudar.

Muita gente, religiosa ou não, porém, me dizia “não tenho palavras”, ou “não sei o que dizer”. Eu entendo o sentimento. Antes da perda do meu irmão, eu também já havia me visto na situação de consolar alguém e ficar sem saber o que fazer ou dizer. Hoje eu infelizmente eu sei. E pensei em compartilhar minha visão, na esperança de que você nunca precise usar.

Perder alguém querido é uma dor imensa, gigante, grande demais para segurar sozinho. Nessa hora, saber que você não está sozinho é um imenso apoio. Se você infelizmente um dia precisar consolar alguém nessa situação, reconheça a dor da pessoa, ofereça um abraço, um ombro e esteja lá para ela (virtualmente, se não tiver outro jeito, pessoalmente, se possível). Mas reconheça. A mensagem, dita nas suas palavras (ou demonstrada sem palavras), é algo na linha de “Eu sinto muito pela sua perda. Eu vejo sua dor. Eu estou aqui. Você não está sozinha. Receba meu abraço e apoio. Eu estou aqui para você.”

E esteja.

Se puder, cuide de algo prático para a pessoa. Além de ela muitas vezes não estar em condições de lidar com aspectos práticos do dia a dia, também reforça a mensagem de “você não está sozinha”. Isso vai de alcançar discretamente um lenço num velório, a ir fazer supermercado, ou fazer a janta, ou por água pro gato. Faz um chá. Abrace.

Não tente explicar o inexplicável, dar sentindo ao trágico, justificar o injustificável, a infinita dor. Compartilhe a dor da pessoa, ela não aguenta sozinha. Ela vai achar seu caminho para a cura com o tempo. Agora ela precisa aguentar o choque, e é nisso que você ajudar, demonstrando de alguma maneira essa mensagem:

Eu me importo. Eu estou aqui. Você não está sozinha.

Dica de livro

Phew. Vamos para algo mais leve agora. Dica de livro. Esse ano eu estou mantendo a média de um livro por semana, entre audiobook e Kindle. Eu sempre fui fã do livro físico, e amo ler no papel. Infelizmente, por problemas de visão, isso já não é possível, na maioria das edições. Então eu procurei alternativas: audiobooks e o Kindle (que me permite ajustar o tamanho, cor, contraste do texto). E procuro ver o que tem de bom nessas alternativas, além de me possibilitar continuar minha conexão com o texto. Por exemplo, audiobook acrescenta a performance do narrador, que dá uma outra dimensão ao texto, além de eu aprender mais sobre a pronúncia de certas palavras (isso vale mesmo para áudio em português). No Kindle eu tenho como fazer busca no texto, ler definições de palavras na hora. Sim, tendo escolha eu leria mais em papel mesmo com isso tudo. Não tendo, aproveito o que tem de bom na alternativa.

A vida segue. Agora a dica.

Humble Pi: A Comedy of Maths Errors

Autor: Matt Parker

O autor é um youtuber e divulgador científico e matemático. Não é meu assunto favorito, mas Matt consegue contar histórias interessantes e explicar os conceitos de maneira clara e divertida. Ele demonstra a importância da matemática através de histórias sobre quando nós cometemos erros com ela. Muitos dos erros são na área de engenharia, outros na computação. Tem até o primeiro erro de matemática registrado que sobreviveu até hoje (um erro de contabilidade numa fábrica de cervejas na Suméria). Tem erros no espaço, tem erros inofensivos e tem erros trágicos. Tem muita coisa sobre como somos ruins para entender intuitivamente estatística (o que explica a existência da loteria).

No livro, eu aprendi sobre a origem de muitas coisas que hoje parecem comuns e óbvias, mas alguém teve pensar nelas depois de darem erro (ao contrário do que parece, sim, somos capazes de aprender com erros do passado). Mas acima de tudo, Matt procura tirar o peso individual do erro – todo mundo erra, o erro é inevitável e aceitar isso estimula criar sistemas robustos que contam com o erro, e são resilientes, em vez de estimular pessoas esconderem ou negarem erros. Eu gostei do livro, e a versão em áudio é surpreendentemente legal, dado que o livro é sobre números, e contém fórmulas, códigos e notação científica. É lida pelo próprio autor, que acrescenta comentários impossíveis na versão escrita.

Ah, veja a história do contador sumério no canal do YouTube dele:

Infelizmente não achei tradução em português, mas se você lê em inglês, tem na Amazon.

Frase da semana

“Todos nós perdemos as vezes. Falhamos em conseguir o que queremos, amigos e entes queridos partem. Tomamos decisões das quais nos arrependemos. Tentamos o nosso melhor e não damos conta. Não é a derrota que nos define. É o como perdemos, é o que fazemos depois.

Scott Jurek, ultramaratonista lendário (e vegano)

Obrigado e até a próxima

Como sempre, deixo meu muito obrigado pela sua companhia. Eu sei que os temas dessa edição foram intensos, e espero ter conseguido tratar dos assuntos de uma maneira que tenha te ajudado. Eu aprecio muito seu feedback – entra na lista (tem formulário lá em cima e no fim de tudo) e manda sua história. Isso é um pedido sincero e não uma maneira de gerar métricas agrada-algoritmo (ele nem tem como saber se você me mandou a mensagem ou não).

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Por ter lido até aqui, por fazer parte dessa jornada comigo, meu sincero obrigado,

Um forte abraço e até semana que vem!

Daniduc – Daniel Duclos

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