Newsletter do Daniduc #32: alimentação saudável para crianças, dicas de escrita, músicas cover mais famosas que as originais, um jogo mágico e a origem do laconismo

E aí? Tudo bem contigo?

Eu estou aos poucos voltando ao ritmo e a lista acabou entrando num formato novo de dois tipos de email. Um é um curto update semanal, pra gente não perder contato (ainda mais agora que tô fora do Insta), e um outro para avisar quando sai a nova edição da Newsletter quando ficar pronta. A edição (como essa aqui) é mais completa cheia de assuntos diversos para você ler com calma, ao longo do tempo – como uma revista, digamos assim.

Se ainda não está na lista, coloca seu email na caixa abaixo (também é a maneira de entrar em contato direto comigo):

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E por falar em assuntos, vamos aos dessa semana. Vou falar sobre a alimentação dos nossos filhos, dicas de escrita, música, uma alternativa no iPhone para WhatsApp, um pouco de história e um jogo legal que pode divertir a família tod. Se quiser pular algum, ou ir direto para outro que te interessa mais, toda edição tem um índice pra te facilitar a vida.

Edições anteriores da Newsletter acessíveis para você

Mais uma coisa antes de começar: eu faço essas Newsletters para durar, e serem úteis e interessantes mesmo que tenha passado um tempo. Uma das (muitas) coisas que me incomodam em mídia social é o conteúdo ser descartável e sumir ou ficar enterrado, forçando quem consome a ficar voltando por medo de perder algo, e ao criador publicar tendo algo interessante ou não. Anyways, você pode ler todas as edições nos arquivos, e aqui estão os links para as três edições anteriores:

  • Na edição #31 eu falo sobre porque deletei meu Instagram, WhatsApp e Facebook, doenças da vida moderna, como passei a gostar de esporte e o que corrida de resistência me ensinou para a vida
  • A Edição #30 está nesse link, para você ler sobre porque saí da área de turismo, mudança de carreira, dicas para melhorar sua corrida, dica para usar a Siri e dois podcasts que participei
  • Vale a pena ler a edição #29 (o problema da imagem corporal e peso, como foi tomar vacina de COVID na Holanda, equilíbrio não é o caminho do meio e dicas para melhorar o sono)
Está se aproximando o outono!

Como os saguis se adaptaram a nossa alimentação

Um dos assuntos mais pedidos para eu abordar aqui, tanto via email, tanto via Insta (quando eu tinha) é sobre como os nossos saguis se adaptaram à minha alimentação. Para você entender do que estou falando, saguis é como eu chamo meus filhos (como expliquei nessa edição dedicada a como criamos filhos na Holanda). Não, não tenho um zoológico em casa (embora as vezes pareça). Outra coisa importante para o contexto dessa conversa: em 2019 eu voltei a ser vegetariano, e em janeiro de 2020 eu virei vegano. Bem, não literalmente vegano, porque só mudei minha alimentação para ser inteiramente baseada em plantas. Veganismo é todo um estilo de vida que rejeita qualquer uso de animais, e vai bem além da alimentação. Mas eu uso o termo no contexto de comida porque as pessoas leigas entendem mais fácil. Eu fiz uma explicação mais completa, tirando as dúvidas mais comuns sobre comer somente plantas na edição #28 aqui.

Okay, aí sobrou uma dúvida bem comum: e os saguis? Porque além da minha alimentação ser baseada em plantas, eu como basicamente tudo integral, evitando o açúcar rápido e alimentos com refinados. Deixando claro: eu como carboidratos, e bastante (é a base da energia para a minha corrida de resistência). Estou falando de carbs refinados, sem fibras, pobres em nutrientes, esses eu evito. Eu como arroz – integral. eu como pão – 100% integral. Eu como frutas – frescas, não suco, inteiras (incluindo casca se comestível). Falei mais sobre como larguei o açúcar refinado, e as diferenças entre carbs na edição #30, vale a pena dar uma lida.

Mas uma coisa é eu comer somente plantas e não comer um monte de docinhos. Uma alimentação assim exige uma certa consciência e expansão do paladar que é mais raro criança ter. Como fazemos? A resposta tem sutilezas. Vamos lá.

Primeiro de tudo: os saguis não são veganos (bem, saguis de verdade são, acho. Tenho que tomar cuidado pra isso não parara no Google e o povo começar a escrever besteira na lição de casa). Meus filhos não são veganos, pronto. Eles comem laticínios e carne (embora não sejam muito fãs de carne vermelha, mas isso é por gosto pessoal dos dois). A gente optou por manter produtos animais na alimentação deles. E açúcar também – sim, eles comem doces. Isso porém não quer dizer que não introduzimos novos hábitos alimentares para eles. Houve sim, mudanças.

As mudanças alimentares dos nossos filhos

Um tempo atrás, digamos, 2017, por aí, todos nós como família comíamos bem diferente do que hoje. Eu fui o primeiro a introduzir mudanças a partir do fim de 2018, devido a crise de saúde que comento com alguma frequência por aqui. Cansado de ficar doente, e para ser sincero, de viver a vida à mercê das circunstâncias, como se eu não tivesse outra opção a não ser reagir ao que a vida jogasse em mim, eu resolvi mudar. Isso envolveu mudanças de hábitos que iam muito além de “preciso começar a fazer mais exercício” ou “comer melhor”, mas principalmente, uma mudança de mentalidade: eu não preciso ficar totalmente a mercê da vida. Eu posso mudar circunstâncias, e me preparar melhor para enfrentar as que não posso mudar.

Enfim, uma das coisas que fui mudando foi a minha alimentação. De manhã comíamos todos pão, e no meu caso e dos saguis, pão branco com hagelslag (chocolate granulado). Ou chocopasta (Nutella e seus clones). O Almoço é na escola, e almoço holandês é… mais pão. Com queijo, ou presunto. No lanche da tarde não era incomum comermos croissants, ou um bolo, ou um bolacha/biscoito salgado (de farinha branca refinada). Janta? Massa (refinada) era comum. Farinha branca (que é açúcar rápido disfarçado), mais farinha branca, açúcar, embutido. Para acompanhar, suco de fruta (sem as fibras, a frutose é apenas um açúcar rápido. Ou seja…. mais açúcar).

Yeah. Eu queria variar mais, introduzir mais nutrientes e sabores.

Eu comecei a estudar como, e fui eu mudando o que eu comia, e aos poucos isso foi influenciando e trazendo a família junto. Ao longo do tempo a Carla foi vendo os resultados, fomos conversando, ela foi fazendo mudanças também (ela virou vegana agora em 2021). E claro, fomos conversando com os saguis também. Acabamos fazendo mudanças e introduzindo algumas regras.

O dia alimentar dos meus filhos (exemplo em dias úteis)

Antes de começar, porque é a internet, um aviso: isso é, primeiro, um exemplo, e segundo, não tem a pretensão de ser “perfeito” nem modelo para ninguém, nem ficar na vibe “eu sou certo e você errado”. Cada um cria seu filho como quiser, e alimentação do seu filho é contigo. Não vou ficar comparando nem julgando (em troca, por favor, não faça isso com os meus). Isso é para ilustrar o que mudamos, e voc6e comparar como era antes (contei na seção anterior).

Café da manhã – 7h10

(Eu acordo as 6h30 para por a mesa e fazer café, depois tiro eles da cama)

Durante dias úteis, eles tomam no café da manhã iogurte (vegetal) com granola, frutas (morango, uva, uva passa, mirtilos, maçã, banana), semente de chia, cacau nibs (semente de cacau torrada e moída) pindakaas 100% (pasta de amendoim sem nenhuma adição). O sagui mais novo, seis anos, inclusive mostra um talento, certamente herdado da mãe, para enfeitar o prato e deixar digno de foto no Insta. Ele até pede para tirar uma foto todo dia, todo orgulhoso. Na maioria dos dias ele prepara tudo sozinho (um dia ou outro ele está de mau humor e a mãe prepara para ganhar tempo (tem hora para ir para escola). A mãe sabe deixar bonito o prato, ao contrário do papa. Eu faço os lanches/almoço).

Café da manhã da mamãe
E o café da manhã que o sagui mais novo (seis anos) preparou imitando a mamãe (e tirou ele mesmo a foto)

Lanche da manhã – 10h00

Aqui é fácil. Eu coloco fruta na lancheira dos dois. Eu deixo eles escolherem as frutas (as vezes eles pedem surpresa). Escolhas populares: maçã, manga, uva, morango, mexirica/(v/b)ergamota/tangerina (céus). As vezes rola uma banana.

Almoço – 12h30

Hey, é a Holanda, então, yeah, rola sanduíche. Mas agora é com pão 100% integral e demos um tempo nos embutidos. Hoje eu coloquei para um homus (dá pra dizer húmus também, a palavra tem dois sentidos em português) caseiro (Carla fez) com pimentão e para outro o pindakaas. Como complemento coloquei um queijinho da vaca que ri (okay, esse é processado) para um e castanha de caju para outro. Eles têm suas preferências, eu pergunto toda noite para o dia seguinte, e eles podem escolher – dentro de certos parâmetros – o que tem em casa. Eles estão também acostumados as escolhas.

Eu e a Carla almoçamos comida em geral, várias vezes sobra da janta, e muito de vez em quando a sagui mais velha pede isso também, e eu coloco para ela na lancheira.

Almoço da mamãe…
…e o almoço do sagui, inspirado pelo lindo prato da mamis. Sim, exemplo funciona.

Lanche da tarde – 15h30

Aqui entra um smoothie ou, como eu chamava na minha infância, vitamina, de frutas. Basicamente fruta batida com leite. As vezes eu faço um smoothie verde, usando água, espinafre e mais frutas diferentes. Isso acompanha uma cracker de lentilha (é menos bizarro do que parece) com algo em cima. Pode ser uma “ricota” vegana de tofu, fazemos em casa, que os dois adoram. §As vezes a Carla faz um bolo, usando farinha integral e adoçado com tâmaras, mas isso é de vez em quando mesmo. E se eu quiser fazer uma surpresa ocasional eu faço um pão de queijo caseiro. Mas o bolo ou pão de queijo são exceções, a regra é o que eu falei.

E aqui eles comem em geral o que eles chamam de “docinho doce”. Basicamente o doce do dia. Um pedaço de chocolate, ou algo assim. Eles têm uma reserva de “docinhos” no armário, e escolhem o que querem no dia. No verão rola um sorvete com alguma regularidade (as vezes caseiro – eu tenho uma sorveteira, comparada anos atrás). Basicamente é o que seria a “sobremesa” deles, só que rola de tarde e não depois da janta. A gente tentou encher as crianças de açúcar e querer que elas durmam logo depois. Não deu muito certo…

Janta – 6h30

Aí a janta. Sim, tem sempre uma opção vegana, mas muitas fezes fazemos também algo carnívoro pros saguis (sorry, Google). Aqui o mais novo é mais aventuroso e muitas vezes experimenta o que a gente tá comendo. especialmente se ele vê os lindos pratos que a mama monta. Aqui é muito importante o exemplo e a apresentação. Foi nesses que descobrirmos que o mais novo gosta de rúcula(!).

E esse é o dia. Eles dormem as 20h00 – luzes apagadas pontualmente. Isso dá 11h10 de cama para eles, que é o que crianças da idade deles precisam em geral.

Aos fins de semana damos uma relaxada nos horários. Eles acabam saindo da cama um pouco mais tarde (mas não muito, em geral pouco antes das 8), e comem uma granola da Quacker, que contém açúcar nos ingredientes, e eles podem comer coisas doces no café da manhã (tipo panquecas com mapple syrup). Variamos o almoço também, podendo ser por exemplo um tosti kaas (o famoso queijo quente, em português) e somos de maneira geral menos cuidadosos com os horários. Podemos jantar pizza ou algo especial (embora não seja todo fim de semana algo assim).

Na segunda, de volta à rotina.

Mudança gradual, e motivos claros

Ah, claro que tem dia que eles reclamam da janta e não querem nada daquilo. Aí entra mais conversa, da importância de experimentar (e se você nunca tivesse experimentado chocolate? Você nunca ia saber que era gostoso), e de experimentar mais de uma vez (as vezes a gente estranha um gosto só porque é novo). A regra é paciência, e “pedra dura em água mole”…. uh, espera. água dura em pedra mole… não. Como era? Ah sim: água mole em pedra dura… (e as cabecinhas podem ser bem duras, não faço ideia de quem eles herdaram. Deve ser da mãe).

Nenhuma mudança é da noite para o dia. é fácil comparar dois pontos distantes no tempo e ver grande contraste, mas grandes mudanças são resultado de micro mudanças cumulativas ao longo do tempo. Isso vale para muitas outras coisas. e conversa. Tem que fazer sentido na cabeça deles, senão é só uma lei externa. Claro que como pais, a gente baixa a lei (se eles soubessem se cuidar sozinhos não seriam crianças, né?), mas a gente explica a origem e razão da lei. Isso facilita eles assimilarem e diminui, com o tempo, a resistência, porque faz sentido. Foi assim que consegui introduzir muitas mudanças. Sim, rola o não pode, mas acompanhado de um porque. e eu respondo perguntas. E dou exemplos nas explicações, e o exemplo nas ações.

E lembra o que falei da água mole em pedra dura? Eu notei que, se você continua com as mudanças, com essas técnicas que mencionei (aos poucos, com exemplos e boa apresentação e firmeza mas com embasamento), eles aceitam super bem e vira o novo normal. Foi assim com pão integral, macarrão integral, arroz integral – eles só queriam o branco, o branco que era gostoso, esse bleh, etc. Hoje eles acham até estranho quando é branco. As regras dos docinhos viraram rotina, totalmente incorporadas. Eles não tomam refrigerante a ponto de recusar na casa dos amigos (e a gente sempre diz que na casa do amigo vale a regra do amigo, se eles quiserem pode).

Aliás, isso é outra coisa: casa do amigo é algo eventual, e algo eventual pode, porque a base é o que conta. O que te dá resultado é que você faz 80 a 90% do tempo.

(Porém, cuidado com isso: é fácil racionalizar qualquer coisa como exceção, e dizer é so hoje, ou só de vez em quando, quando o de vez em quando é tipo todo dia se for ver bem. Eu fazia isso. Toda vez que eu comia açúcar refinado era “exceção” e “de vez em quando”.)

Enfim, é como fazemos no momento com os saguis, usando a mesma filosofia que adotei para a vida no geral: “um pouco melhor sempre que der” em vez de “perfeito ou nada”, e “um pequeno passo por vez” em vez de “mudança radical repentina”. Tem funcionado para mim, e espero que funcione para meus saguis.

Seção de cartas: como faço a Newsletter (dica de escrita)

Uma seção nova que surgiu na edição anterior é a seção de cartas – mensagens que recebo com perguntas e sugestões de assuntos. A dessa edição é:

Qt tempo vc dedica à escrita da newsletter? como é o seu processo de escolha do assunto (ainda mais agora sem a influência, digamos, dos assuntos de redes sociais)
tento escrever (pra mim mesma) mas o máximo q consegui achei sem graça…
um abraço! e boa sorte com decisão de sair da família face!

Mariana

RESPOSTA: Oi Mariana, tudo bem? Brigado pela pergunta! Vamos lá… eu vou te dizer como eu faço a Newsletter, talvez ajude.

Primeiro, os assuntos. Eu tenho um caderno (esse aqui) onde vou anotando as ideias para assuntos. Eu escrevo um cabeçalho contendo o número da edição, e vou escrevendo o que me ocorrer. Isso é importante: assuntos vêm e vão na nossa cabeça, e eles têm a mania besta de sair correndo no minuto que você senta para escrever. Dizem que papel ou tela em branco os assusta. Vai saber. Eu prefiro não confiar nos pilantras, e ir anotando. Assim na hora de compor a Newsletter, eu tenho ao menos um esqueleto do que irei abordar.

O que me leva a próxima dica: criar uma estrutura em cima da qual eu consiga criar. Daí seções, que podem vir ou ir, não necessariamente têm de ser sempre iguais toda edição. Elas servem mais, digamos, como blocos de lego, que posso usar para montar uma edição.

Isso facilita pensar nos assuntos que se encaixam nessas seções: você passa a prestar atenção no tipo de coisa que cabe na Newsletter – ou o que seja que você queira escrever. Digamos que você queira escrever sobre a vida de uma mulher que viveu no século passado em Amsterdam. De repente, você passa por um sebo que tem um mapa de Amsterdam com o ano 1973 marcado. Antes você nem registraria, mas uma vez que o assunto se torna alvo da sua atenção, ele passa a pipocar por toda parte. Isso ajuda a te dar munição para escrever.

Os assuntos em geral surgem dos meus interesses. Do que eu estou lendo, assistindo, ouvindo, conversando (pobre Carla). Nisso eu descobri que mídia social mais atrapalha do que ajuda, sabia? Sem a constante interrupção de micro-conteúdos, há mais espaço para consumir conteúdos mais elaborados, que causam mais reflexão e despertam interesses. Os micro-conteúdos sem contexto das mídias sociais exaurem, os conteúdos longos inspiram, ao menos na minha experiência pessoal. Livros, vídeos, filmes, músicas, podcasts, isso tudo é munição. E sem ter a atenção interrompida pelo tique nervoso de checar o que tá rolando no Insta, o olhar se eleva um pouco da tela, e o mundo ao redor acaba inspirando mais. Sem mencionar que diminui o desgaste emocional de você ver as pessoas brigando o tempo todo, e micro-agredindo uns aos outros sem parar.

Sei lá – até o momento a mídia social não fez falta não.

Acaba que não cabem todos os assuntos que pensei em uma edição, e aí sempre espirra um para a próxima. Desde a edição #2, dificilmente eu começo o rascunho de uma nova totalmente do zero. Em geral ela já começa com algo herdado da anterior, que foi cortado por um motivo ou outro (tempo e/ou espaço, na maioria das vezes).

E daí vem a prática. Eu comecei a escrever blogs em 2004. Em 2005 eu tinha um blog de letras até popular, mas era ainda amador. Em 2007 comecei o Ducs Amsterdam, que decidi profissionalizar a partir de 2008 (oficializei a empresa no começo de 2012, mas naquela altura ele já dava dinheiro regular suficiente para o governo querer saber de onde ele tava vindo e, mais importante, cobrar impostos). Fazendo a conta, vão aí 17 anos escrevendo regularmente, e 13 profissionalmente. E até hoje nem tudo que escrevo presta. A diferença é a proporção entre chatice e coisas interessantes, além de eu ter experiência suficiente para cortar e reescrever as partes que não prestam.

Ah, tem essa: reescreva. Na primeira versão, é tipo virar o balde de ideias da sua cabeça no papel (ou tela). Do jeito que vier tá bom, o importante é jogar o material bruto para fora, para poder trabalhar nele. Depois de reescrito, quem lê acha que você sabia o que estava fazendo desde o início, e que fez tudo de primeira, e fácil. Mal sabem eles…

(Eu aconselho inserir um intervalo de tempo entre o primeiro rascunho e a segunda versão).

Eu acho que você achar chato o que você escreve um excelente começo. A maioria das pessoas acha que já nasceu o Machado de Assis pronto e não vê motivo algum para melhorar. Você quer melhorar, e isso é uma vantagem enorme. Você está perguntando sobre técnica, e como melhorar. Fantástico. Tem, naturalmente, infinitos livros e manuais, mas os meus preferidos são os escritos por autores refletindo sobre seu ofício. A autobiografia do Stephen King, por exemplo.

Só lembre de não deixar a autocrítica te impedir de continuar a praticar. Escrever, como a maioria das coisas, se aprende fazendo. Espero ter te ajudado com alguma coisa e espero um dia você me contar que gostou tanto de algo que você mesma escreveu que resolveu mostrar para alguém. Até lá, se tiver mais dúvidas, me mande.

E para quem quiser fazer uma pergunta ou sugerir um assunto, entre em contato comigo na lista. É um bom jeito que tenho para eu obter assuntos também!

Músicas cover que acabaram mais famosas (ou melhores) que a original

Uma das minhas definições de “boa arte” é “arte que inspira outras pessoas”. Eu vou colocar aqui algumas músicas que foram inspiradas num original de uma maneira que vai além de uma re-execução, e entra na criação de algo novo, com vida própria.

Surfing Bird: original por The Trashmen, cover definitivo dos Ramones

Eu diria que os Ramones não são punks, Ramones são o punk. Enquanto o mundo dançava o boogie nos embalos de sábado a noite, os Ramones pegaram três acordes e meio que criaram um gênero de música, sem frescura, reto ao ponto, rápido e violento como uma guerra relâmpago. Eu amo! Assisti a dois shows deles nos anos 90, no Olympia em São Paulo, sendo o de1996 parte da turnê de despedida deles (não sabíamos na época, mas o vocalista, Joey Ramone, estava doente). Eu posso dizer que dancei ao som ao vivo de Surfing Bird, uma das músicas que definiram a banda que criou um gênero. E é um cover! A música original é da banda algo obscura The Trashmen. Eles foram resgatados um pouco com o filme Full Metal Jacket do Kubrick, que usou a versão original, de 1963, o único sucesso da banda, que sumiu depois. A versão definitiva ainda é dos Ramones.

Só a performance do vocalista imitando uma ave no palco já vale o vídeo

Menção honrosa: Family Guy

Eu com meus filhos.

Respect: original por Otis Redding, cover defintivo por Aretha Franklin

A música Respect foi escrita por um homem, e tratava de uma garotinha doce que por isso recebia o dinheiro do narrador. Yeah. Aretha pegou essa pérola chauvinista e transformou num hino feminista, com pequenas alterações na letra.

Fuck hell yeah, Aretha!

All along the Watchtower: original de Bob Dylan, cover definitivo de Jimi Hendrix

Okay, Dylan ganhou um Nobel e tudo, e a música original é fantástica, mas vamos aqui concordar que Bob não é assim, o melhor cantor da face da Terra, e nem vou comparar a voz e gaitinha dele com a voz e a guitarra de Hendrix, né? Jimi apavorou e fez All Along the Watchtower como deveria ter sido feita desde o início. Diz a lenda que até Dylan reconheceu isso, dizendo “É uma música do Jimi, eu só compus”.

Fuém. Furérém. Fuém. (Hey, eu gosto, mas…. né?)
Sorry, Bob.

Nota: sim, eu fiquei sabendo das acusações contra Dylan. Estou acompanhando.

The man who sold the world: original de David Bowie, cover definitivo do Nirvana

Ah, agora comprei treta com os fãs de Bowie (e com fã de Bowie não se brinca). Não era minha intenção e eu reconheço totalmente que Bowie criou uma obra prima inigualável. Me curvo a primazia de David. Certo? Paz. Bandeira branca. Agora, muito Gen-Xer descobriu a música com Nirvana, e essa ficou sendo a versão definitiva. Bowie contou que achava engraçado os moleques (na época) dizendo “hey cool, você fez um cover de Nirvana”. E eu sou Gen-X’er 🤷‍♂️

Podemos curtir as duas versões… todos ganham!

Hurt: original de Nine Inch Nails, versão definitiva de Johnny Cash

Pobre Trent Reznor: escreveu uma música super pessoal, sobre seus demônios mais íntimos, abrindo seu coração, apenas para ver Johnny Cash fazer um cover tão poderoso que acabou se apropriando da música. O vídeo de Cash foi considerado um dos melhores de todos os tempos, e o próprio Trent se rendeu: “a música não é mais minha”. Oh well.

Cash refletindo sobre sua vida, então no final, usando as palavras de Trent, numa interpretação assombrosa. Me dá arrepios toda vez que ouço (e vejo o vídeo). Te desafio a ficar indiferente nas cenas dele com a esposa, que havia acabado de falecer enquanto ele canta “você é outra pessoa / e eu ainda estou aqui / o que me tornei, minha mais doce amiga? / todo mundo que eu conheço vai embora no final”… Wow. Sério.

Cash falece sete meses depois do lançamento do vídeo.

Frase da semana

Caneta que usei: Lamy Al-Star Bronze, com uma pena stub. A tinta é Diamine Inkvent Fire Ember.

Dica para alternativa ao WhatsApp (Apple): Messages

E a vida sem WhatsApp hein? Tem sido surpreendentemente okay, mesmo o Zap sendo de longe a alternativa mais popular aqui na Holanda. Além do Telegram e do Signal, eu tenho usado o Messages da Apple. Na funcionalidade mais simples, ele usa o SMS para mandar as mensagens, o que okay. Funciona. Mas é bem limitado e pior, usa o seu plano de telefone, não o de dados (internet). Porém, se a outra pessoa também está na Apple (celular ou computador), você ganha muito mais recursos e passa a usar seu plano de Internet, como o Zap. Eu falo com amigos em dois continentes diferentes assim, sem usar o meu plano de telefone. Para habilitar isso, tanto você quanto a pessoa tem que configurar o Messages oara usar o iCloud. No iPhone, vá em Ajustes, Messages, e ligue o iMessage. É a primeira opção. No MacOS, vá em ajustes, AppleID e clique em Messages na opção de apps usando icloud nesse computador. ta da!

Agora, quando você mandar mensagens para a outra pessoa, elas serão enviadas numa bolha azul, em vez de verde, e você ganha acesso a vários efeitos, dos bobos mas divertidos (animações de texto e tela), até os úteis (mensagens de voz some em 2 minutos depois de ouvidas, por exemplo – se você quiser). Você pode pregar os chats mais usados no alto da tela, entre outras coisas.

Mas a principal vantagem do Messages é a pessoa com quem você está falando não ter de instalar mais um app. O Messages vem por padrão em todos os iPhones.

Os espartanos usavam poucas palavras e assim deram origem a uma nova: lacônico

Eu contei sobre as origens clássicas da prova da maratona e da ultra maratona na edição #16, certo? Eu adoro esse tipo de história, mesmo quando é mais lenda que realidade (a origem da maratona é lenda, mas da ultramaratona é verdade – e muito mais impressionante). Então vamos contar mais uma origem histórica lendária.

Lacônico quer dizer uma pessoa ou mensagem de poucas palavras. Lacônia é uma região na Grécia, onde ficava localizada a cidade histórica de Esparta. Existe uma Esparta hoje, mas ela meio que é uma cidade moderna (fundada em 1834) no local da famosa cidade histórica. É uma cidade planejada, toda cheia de largas praças e avenidas arborizadas. Não é dela que estou falando. Estou falando dos espartanos raíz, os lacônicos originais, os habitantes da Lacônia, que falavam mais com ações do que com palavras.

Sim, sim, o filme 300 mostra algum dos one liners mais famosos dos espartanos como a reposta “vem pegar” para a exigência de “entreguem suas armas”. A petulância de um punhado de gregos encurralados num despenhadeiro basicamente dizendo “cai dentro” pra um exército trocentas vezes maior fez história e virou história. Outra famosa resposta insolente que foi parar no filme é a “melhor, lutaremos na sombra” para a “eles são tantos que seus voleios de flechas cobrem o sol”.

Mas a minhas respostas lacônicas preferidas não estão no filme. O rei Filipe II da Macedônia chegou aos portões de Esparta, depois de conquistar boa parte da Grécia. Ele mandou perguntar aos espartanos:

– Devo me aproximar de vocês como amigo ou como inimigo?

A resposta veio em uma palavra: “Nenhum”.

Uuuuuuuuuh! Sem aprender a lição, Filipe insistiu no erro e mandou a ameaça:

– Se eu invadir a Lacônia, irei destruir a cidade, massacrar os homens e escravizar as mulheres.

A resposta é o mais brilhante exemplo de laconismo que eu conheço. Uma palavra, duas letras:

“Se.”

Filipe não invadiu.

O filme 300 mostra os espartanos gritando as suas frases, dando chute no peito THIS IS SPARTA. Enquanto o verdadeiro espírito lacônico era mais sutil, com a inteligência e humor tão afiado quanto suas espadas. Eles não precisavam gritar ou bater no peito ou perdigotar na cara de todo mundo para apavorar inimigos. Eles se garantiam, e sabiam disso, e o terror quem impunham era porque os inimigos sabiam disso também. Eles falarem baixo, curto, era muito mais apavorante do que chutão no peito THIS IS SPARTA. Filipe II sabia muito bem o que era Esparta. E ficou esperto levando duas palavras e zero chutes.


Essa história da Lacônia me lembrou a origem da palavra latino. Essa é mais conhecida, já que nós somos latinos, mas enfim… Latino vem de Lácio, ou no original, Latium, a região na Itália onde fica Roma. Por isso que a língua que eles falavam se chama Latim (em vez de romano) e seus descendentes são conhecidos como latinos, e o Português é a “última flor do Lácio”, a língua mais recente a derivar do latim (bem, era na época do poema). Se você sabia, relembrei, e se não sabia, agora você sabe 🙂

Um jogo mágico para toda a família

Esse fim de semana eu redescobri o jogo de Magic The Gathering via sua versão online, Magic Arena. Eu jogava com as cartinhas de papel na minha mocidade (e usar a palavra “mocidade” adiciona uns 35 anos na sua idade, eu me divirto), mas parei por causa de, sabe, vida. Casei e mudei de país e tal. Vida adulta. Um dia meus filhos viram minha velha coleção, e se interessaram em aprender. Eu fiquei com preguiça de montar dois baralhos para ensiná-los. Aproveitei a dica de um amigo e instalei o Magic Arena, a nova versão digital, e foi um sucesso.

Magic é um jogo de cartas onde você faz o papel de um feiticeiro poderoso que lê as mágicas (cartas) de seu grimório (baralho). Grimório quer dizer um livro medieval contendo mágicas, feitiços e rituais. Você tira energia (mana) para fazer suas mágicas de terrenos que você controla. Existem cinco cores de mágica: azul, branco, preto, vermelho e verde. E incolor. Você pode misturar como quiser essas cores no seu grimório. Você usa a energia para fazer feitiços, invocar criaturas para lutar ao seu lado, criar artefatos e até chamar outros feiticeiros (em formato de carta) para te ajudar. Em Magic, os feiticeiros (você e os de papel) são chamados de Planeswalker (andarilhos dos planos). Planos são os mundos onde os duelos de mágica ocorrem.

Uma foto antiga minha…

O jogo tem uma série de regras, mas a mais importante é: se uma carta faz algo que contradiz as regras, vale o que está escrito na carta. Isso, aliado com mais de 20.000 cartas diferentes impressas ao longo de 25 anos de história do jogo, permite uma inacreditável variedade. Ah, claro que você não precisa saber, ou ter acesso a tudo isso de cartas (a não ser que você seja um jogador hardcore). A maioria das pessoas joga apenas com as coleções mais recentes, e as cartas mais antigas são confinadas a formatos específicos para isso.

Eu descobri o jogo na faculdade (talvez por isso não tenha me formado), lá nos anos 90. Na época, Magic era recente, mas já bem popular, e algumas cartas mais raras e poderosas eram bem caras. Você vê, as cartas são vendidas em envelopes, onde se distribuem de maneira aleatória, como figurinhas. Mas existe um mercado secundário de jogadores e colecionadores, que revendem e compram as cartas isoladamente. Hoje em dia, as cartas da primeira coleção, a que deu origem a série, de 1994, são muito caras, mesmo as mais fracas. E as mais poderosas e raras, como a Black Lotus (Lotus Negra) pode valer dezenas de milhares de dólares, e se estiver em bom estado, muitas dezenas de milhares de dólares. Quando eu comecei a jogar em 1996, ela já era rara e fora de impressão, mesmo tendo sido lançada apenas dois anos antes. Custava uns 300 dólares nos sites de leilão online, e eu achava absurdo. Deveria ter comprado uma…

Por outro lado, o que sobrou da minha coleção dos anos 90 (vendi/doei muita coisa no começo dos anos 2000) hoje até que vale bastante. Descobri que tenho muitas cartas que hoje valem centenas de dólares (e a gente tirava nos pacotinhos). Somei por cima, e tenho uns 4500 euros de cartas numa caixa de papelão (o problema é vender isso… tem que criar conta no ebay, negociar, enviar… na prática deve dar menos, descontando frete, imposto, eventuais calotes e tal…)

Será que minha coleção sobrevive? 😀

Mas para jogar as coleções atuais, como a maioria das pessoas, não precisa de uma grande fortuna. Existem baralhos prontos vendidos pela própria empresa num preço razoável, que já vão divertir. A versão digital já vem com um monte de cartas e grimórios prontos, que já dá pra você brincar, e ir longe, sem gastar nada (somente tempo, o que é legal – passar o tempo é a ideia mesmo). Tem para Windows, Mac, Android e iOS.

É um jogo flexível e divertido, que pode ficar bem complexo. A versão digital faz um bom trabalho de ensinar o básico, e tem em português. Se você, como eu, tem dois goblinzinhos, pode ser um bom passatempo para a família.

Link Magic Arena aqui.

Obrigado e até a próxima

E eu até tinha mais assuntos programados para essa edição, mas como citei lá em cima, sempre acaba sobrando para a próxima. Essa já está de bom tamanho, e espero que te divirta até sair mais uma.

Como sempre muito obrigado pela sua companhia nessa jornada. Sua atenção é um prazer e um privilégio.

Um abraço e até a próxima

Daniduc

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Antonio G. M.
Camila M. P. G.
Denise N.
Estevão M.
Ida L. D.
Francesco P.
Greice D.
João P. S.
João V. P.
Luiz M.
Maria Lucia A. L. d. M.
M. A. Borges D.
Patricia de L. e S.
Rachel A.
Rubens A.
Simone de Lucia B.
Tatiana G.
Vivian M.

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