Newsletter do Ducs #13: Recuperação e resiliência, dicas e experiências

E aí? Tudo bem contigo?

Okay, de volta com as newsletter depois de uma semana de pausa devido à cirurgia e… espera, você perdeu essa parte da história? Tem problema não. Dá uma lida na ediçã0 #12. O link para as três edições mais recentes está aqui. Eu vou fazer referência a edições passadas nessa newsletter, e aí já fica o índice. É uma das vantagens de fazer newsletter/blog em vez de stories. A gente tem espaço e tempo para produzir e acompanhar no nosso ritmo…

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Okay, antes de contar a história, deixa eu agradecer o IMENSO apoio e carinho que recebi de você. Essa newsletter está se mostrando uma comunidade sensacional, e estou empolgado com as possibilidades.

Estamos, como se diz, apenas começando.

A véspera da cirurgia, dia do meu aniversário: recuperação de um amigo…

Newsletter passada eu contei como adiantei a comemoração do meu aniversário, porque a cirurgia seria no dia seguinte dele, meio da semana. No dia mesmo, eu sai para fazer uma corrida especial, com meu amigo Érre, o internacionalmente famoso hashtagfeet no Insta.

Foi ele que me acompanhou na melhor corrida da minha vida, a meia maratona em outubro.. E foi ele que me deu um susto tremendo em dezembro sofrendo uma trombose cerebral (um tipo de AVC), quase morrendo, acordando do coma induzido para cirurgia de emergência no cérebro e me dizendo assim que abriu os olhos (eu tava lá): “claro que vamos correr juntos de novo, foi só uma dorzinha de cabeça”.

Besta.

Besta ou não, é fato: ele tem mostrado uma recuperação inacreditável, recuperando fala, movimentos, equilíbrio em tempo recorde – veja, ele ainda está trabalhando nisso tudo, mas a melhora é de cair o queixo. E é difícil não associar o trabalho duro que não só ele têm feito, mas que ele já fazia antes do acidente.

Érre treina regularmente parkour, calistenia e (algo mais irregularmente) corrida há anos. Aliás foi ele que me sugeriu começar exercícios regulares quando eu estava numa cama de hospital numa situação delicada requerendo cirurgia de emergência, lá em 2018.

E agora esse treino, e essa ética de exercício regular não só o deixaram mais preparados para um caso extremo, como ajudam no novo caminho da recuperação. Ou seja, como sempre digo: a vida é esporte de resistência: é preciso reinar para ela.

Enfim, no dia do meu aniversário, ganhei dele de presente uma corrida conjunta, como nos velhos tempos. E nem sequer tinha sido a primeira corrida dele desde dezembro!

Animal.

…e acabei ganhando (sem querer) um iPhone… (Dicas de Apple)

Na volta para casa, postei uma foto dele no Insta para comemorar o fato e… foi meio que a última coisa que fiz com meu iPhone. Ele parou de responder aos comandos na tela, e passou a fazer coisas sozinho (desculpa ter te ligado, Pacelli).

Rebootei. Nada. Fiz um hard reset – esse procedimento soluciona muitos dos casos de travamento de software.

(Em iPhone sem home button, ou seja, X em diante: aperte volume para cima, na sequência volume para baixo, e daí o power, segure até a maçã aparecer).

Mas não resolveu dessa vez. Tentei formatar meu iPhone (Ajustes > Geral > Redefinir). Sem poder usar a tela, ficou difícil. Resolvi restaurara através do meu Macbook (conectar cabo no iPhone e no mac, fazer o mesmo procedimento do hard reset, quando aparecer o ícone do cabo, ir no Finder do Mac, acessar o iPhone no menu lateral, pedir para restaurar).

Nada. O problema era de hardware mesmo. Buscando a página da Apple, fui na página de suporte onde eles têm a lista de programas de recall/serviço (sabia? Às vezes você tem direito a um conserto grátis), achei um recall para iPhone X que era exatamente o problema do meu.

Que é um XS e não estava coberto. Só pagando mesmo. Suspiro. Bom, de toda forma no dia seguinte eu tinha cirurgia, e não dava tempo para ver isso. Peguei o meu velho iPhone 6S, restaurei backup e pronto… estava de novo em 2015. Hora inconveniente para o iPhone falhar, mas a vida segue (com ou sem você). Fui dormir.

A Cirurgia

Previsivelmente não dormi aquelas maravilhas, e acordei cedão. Café rápido e fui andando para o hospital (fica só 2 km de casa). Cheguei na hora, e fui admitido por uma enfermeira muito boazinha, que pingou os colírios, pôs o capuzinho de hospital, me sentou numa cadeira e disse “pronto?”.

“…sim….?”

Ela transformou a cadeira numa maca (ela deita total), me empurrou para a sala de operações e me desejou sorte. Ainda lembrei de tirar o meu Apple Watch e pedir para ela por junto com meus óculos. De resto, fui como estava. Devido ao COVID eles não tinham leito no hospital para eu me recuperar de uma sedação, então foi na salinha mesmo, e apenas com anestesia local, sem nem um chazinho de camomila… só na meditação mesmo.

O médico é um senhor super experiente nascido na Bulgária, especialista chefe de departamento e com renome internacional (meu caso é desses) e me tranquilizou:

—Tem nada não, a gente põe uma música. Adoro música brasileira. Vamos por um forró?
minha cara de pânico Doutor, o senhor quer me furar o olho E tocar forró por duas horas sem eu poder fugir? E a Convenção de Genebra?
— Curte o quê? Rock, pela sua cara.
— Yeah. \m/
— Rock não dá não. Blues?
(Essa não era a conversa pré operatória que eu imaginei). Blues é massa, amo blues.
— Vamos de blues. (Para a enfermeira): aperta o play!

E aí foi. Duas horas – ele teve que desfazer a estrutura das minhas cirurgias anteriores (já operei incontáveis vezes esse olho, acabou falhando, daí essa cirurgia agora), e fazer o implante. Respira. Expira. Respira.

  • …Você viu aquele vídeo que passaram outro dia na lista, muito engraçado…

(Huh, doutor, para de conversa e préstenção aí nesse bisturi faz favor?…)

— AW!
— Que foi doeu? Pera deixa eu por mais anestesia. Não mexe não.

Respira. Expira.

— Heey, Mr. Duclos, dormiu? To quase acabando, vamos finalizar com forrózinho, vai. Você pode sobreviver uns minutos de forró!
— Posso sobreviver bastante coisa, Dr., isso já ficou claro….
(para a enfermeira): Põe o Saia Rodada! Adoro Saia Rodada! Simbora, Brasil!

E assim terminou minha cirurgia. Ponderando sobre esse mundo onde sou operado na Holanda, por um médico búlgaro ao som de Saia Rodada, saí com um olho só (que tem visão subnormal também) e quase passei reto pela Alilickel, que foi me buscar (Carla tava presa com saguis em casa, escolas fechadas na Holanda). Ela me ajudou, me alimentou (levou uma banana salvadora) e me orientou na caminhada de volta para casa (me recusei a pegar um Uber por 2km, mesmo recém operado e sem ver muita coisa). Fui só no comando de voz. Chegamos bem.

A ressaca da cirurgia veio só depois.

Saindo do hospital, fotografado pela Alilickel. Ao contrário do olho, o lockdown hair não melhorou desde então.

Recuperando

A recuperação está indo bem. A visão dupla sumiu nos primeiros dois dias (o meu médico: “Aproveitou para contar o seu dinheiro enquanto ela tava lá?” eu: “dois vezes zero é zero, doutor”). Mas é um processo longo. Ainda estou sem enxergar direito (agradeço as features de acessibilidade do Mac – veja aqui), pupila dilatada (e vai ficar mais uns dias), sem correr ou fazer exercício (um mês), o processo todo é delicado e a recuperação completa leva cerca de seis meses (dando tudo certo).

A gente segue um dia por vez, e como todo mundo, tenho altos e baixos. Quarta passada eu tive um acesso de ansiedade meio forte.

Nessa hora quem veio me salvar, de novo, foi meu treino. De meditação, no caso. Meditação não serve para evitar da gente ficar ansioso (ou bravo, ou triste, ou qualquer coisa). O super poder da meditação é o seguinte: a gente para de se identificar constantemente com nossos pensamentos.

Isso é simples mas revolucionário. Antes da meditação, eu era o meu pensamento. Eu me me identificava totalmente com qualquer coisa que minha mente estava produzindo naquele momento.

Com meditação, a gente consegue criar um espaço entre nós e nossos pensamentos. Note que eles vão continuar vindo – é da natureza da mente pensar o tempo todo. Mas agora eu vejo eles vindo e, melhor, vejo eles indo, e sem me identificar demais com cada um que vem e vai.

E isso é importante em muitos aspectos. Um deles: quando a gente se identifica, a gente se apega. Como pensamentos vão e vem, quando eles vão, a gente sente a perda (já que nos identificamos) e aí, ficamos repetindo, revolvendo, perseguindo encadeando aquele pensamento, trazendo ele de volta de novo e de novo.

E um monte de pensamentos são a causa e emoções. Cada vez que nos apegamos a esse pensamento, repetindo ele, repetimos e emoção. Por exemplo, ansiedade. Ou raiva.

Ficar bravo acontece, é inevitável. Porém, é impossível, fisicamente, objetivamente, impossível ficar bravo mais do que alguns momentos. A única maneira de conseguir isso é repetir o pensamento, reativando a emoção.

Com o treino da meditação, a gente tem o treino para reconhecer a emoção e o pensamento, logo depois de eles ocorrerem.

Eu fiquei muito, mas muito ansioso na quarta. Primeiro fiquei paralisado. Depois, reconheci a emoção, e a cadeia de sensações e pensamentos que estava disparando a ansiedade. Em vez de ficar repetindo-os infinitamente, sentei e passei a meditar. Focando na respiração, e, a cada vez que me ocorria um pensamento (inevitavelmente ocorre), eu marcava: “pensamento”.

Respira. “mas e se f…” pensamento. Expira. Respira “Isso deve ser alg…” pensamento. Expira.

De novo.

Respira.

Funcionou. Eu ainda sou iniciante na meditação (comecei há apenas dois anos, fim de 2018), mas tenho me dedicado à prática regular diária. Como mencionei na newsletter passada, um dos segredos de rotina é encarar pausas como pausas, e não como quebras, e outro é adaptar para a necessidade (não deu para meditar 20 minutos? medito 10. Ou 5. Ou 3). E assim tenho ido. Tem post no blog sobre meditação..

Aliás, eu consigo ajudar os saguis com isso também. Essa semana a sagui ficou com medo de um vídeo que viu durante o dia, e não conseguia dormir. Eu conversei com ela, sobre pensamentos.

Eu disse que os pensamentos iam e vinham, e não precisávamos acreditar neles. E que quando viesse um pensamento que dizia “e se tiver um monstro no quarto” e resposta não deveria ser “é mesmo! E SE TIVER?”

—Deve ser “monstro não existe”? – pergunto ela.
— Não. Isso é resistir ao pensamento, A resposta dele vai ser “É? E como você sabe? Tá escuro!”. Você pode passar a noite toda fazendo isso.
— O quê então?
— Diz pra ele assim: “você é só um pensamento, eu não discuto com pensamento”, e deixa ele ir embora. Todo pensamento vai embora, é como funciona nossa cabeça. Imagina que seu pensamento é uma caneta falando “BLA BLA BLA MONSTRO”. Em vez de discutir com a caneta sobre monstros, responde “Caneta não fala”. E vira pro lado.

Ela riu. E dormiu.

Quanto tempo da nossa vida perdemos discutindo com canetas?

Perguntas & Respostas

E por falar em saguis, a pergunta dessa edição é sobre eles:

“Uma pergunta para a próxima newletter: como é ensinar duas línguas aos saguis? (eles falam português não falam?)” — Vera Schmitz

Oi Vera, brigado por participar do P&R! Sim, os saguis falam português, e de fato foi a primeira língua que aprenderam. Eles nasceram aqui, mas como eu e Carla logicamente falamos o pt-br em casa, eles pegaram da gente.

Mas logo eles foram para pré escola. Não é obrigatório, mas optamos por colocá-los por dois motivos: um, socializar com outros saguis da mesma idade, já que a família e os primos moram longe. E dois, para aprenderem a língua antes de entrar na escola mesmo, diminuindo um pouco o choque.

Funcionou lindamente. Hoje, com 9 e 6 anos e já um tempo na escola, Os dois são fluentes-nativos em holandês, e a mais velha inclusive está na média mais alta do país para leitura e domínio de língua, acima do esperado para nativos da idade dela.

(ahem pai coruja se exibindo, ops).

Por outro lado, eles falam português com sotaque, e misturando palavras e gramática do holandês. A gente não fica estressado com isso, eu e Carla sempre adotamos uma abordagem mais tranquila.

A gente explica as palavras em português quando eles perguntam (ontem o mais novo “que é carga?”, palavra que me ouviu falar). Frequentemente a explicação na verdade é uma simples tradução para o holandês, aí eles entendem na hora.

Acreditamos que língua é um processo natural, flexível e adaptativo. Muita gente se estressa com isso e eu já recebi críticas veladas (e explícitas) por não ficar corrigindo meus filhos e exigindo que não misturem palavras em holandês no português, e eu respeito a decisão de cada um como ensinar o próprio sagui, mas é como fazemos com os nossos.

A gente ensina português para eles, eles nos ensinam holandês, e a gente se entende.

Se você quiser participar do P&R, responda esse email com a sua pergunta!

Palavra de Holandês:

E já que estamos no assunto língua, vamos para a palavra de holandês da semana. Ou melhor palavras. Uma expressão:

“komt goed”

komt conjugação do verbo kommen: vir.
goed (se fala RUT. Na newsletter passada eu mencionei que OE se pronuncia igual ao nosso U. E o D em fim de palavra é dito como T. E o G em holandês tem som de RR). Goed quer dizer “bom”
.
Komt goed quer dizer “vai ficar tudo bem”.

Tecnicamente, a frase seria “het komt goed” (holandês precisa de sujeito), mas eles falam assim mesmo. Vai ficar tudo bem. Komt goed.

Frases da semana

“Nós não nos elevamos ao nível de nossas expectativas; nós caímos para o nível de nosso treino.”

Frase atribuída ao poeta grego Archilochus

“Quem teme o que irá sofrer, já está sofrendo porque teme”.

Michel De Montaigne

Os Holandeses mudaram o mundo (nem sempre para pior)

Essa semana que passou explodiu a história da galera da Reddit, um sistema de fóruns online, versus Wall Street, numa batalha para esculhambar o capitalismo financeiro em seus próprios termos. A história é bem interessante, e me lembrou uma coisa…

Quem inventou o capitalismo moderno foram os holandeses. Yeah. A primeira bolsa de valores e a primeira ação criada no mundo foi bem aqui em Amsterdam, para financiar a primeira corporação multinacional. Os ingleses embarcaram na ideia e o resto é história (até hoje).

E essa não foi a única invenção holandesa que assola o mundo: eles inventaram o Big Brother. Yeah, o programa de TV.

Antes de você se revoltar, leia outras coisas maneiras como os holandeses mudaram o mundo nesse post do Ducs Amsterdam.

Hey, é por causa deles que as cenouras são laranjas. Então… estamos quites?

Obrigado pela seu apoio!

Okay, hora de encerrar. Se deixar eu continuo para sempre. O que pretendo fazer, só que dividido em semanas.

Mas eu só consigo fazer isso com seu apoio, e por ele sou muito grato! Não, mas é sério! Desde que eu resolvi embarcar nesse novo projeto, é o seu apoio que permite justificar eu investir tempo em criar um conteúdo para você, uma pessoa, em vez de tentar agradar robôs (e seus mestres) na esperança deles deixarem gente falar um com o outro.

Nope, prefiro falar direto contigo. E o retorno tem sido sensacional.

Para quem pode apoiar financeiramente: você torna isso possível, muito obrigado! Todo mundo que contribui ganha um convite para o Encontro Virtual mensal (via Google Meeting). Eu tava pensando em fixar uma data – todo 3o sábado do mês, as 20h15 de Amsterdam (agora 16h15 de Brasília).

Algumas pessoas mencionaram a possibilidade de contribuir mensalmente. Eu criei um botão, presente no fim desse e todas as newsletters, que permite definir o valor e, se quiser, clicar uma caixinha para tornar recorrente o apoio.

No fim de toda newsletter vai também o seu nome (se quiser que apareça seu nome completo, me avisa!)

Para quem não pode apoiar financeiramente: você me ajuda demais divulgando a newsletter e ajudando pessoas a se inscreverem. Demais! Na verdade esse apoio é vital, já que não tenho mais o algoritmo distribuindo meu trabalho. Só tenho você. E tenho certeza que juntos iremos mostrar, mais uma vez, que o melhor SEO é uma recomendação pessoal. Você também torna esse trabalho possível!

Seguimos nessa jornada. O olho a gente recupera, a visão a gente se adapta, o iPhone a gente substituí, a mente a gente acalma, a língua a gente aprende, e ensina, o trabalho a gente cria um novo, de novo, o meu trabalho é criar. Komt goed.

Obrigado pela sua companhia nessa jornada. É um privilégio dividir esse planeta, esse momento, esse caminho contigo, com seus altos e baixos, por uma parte pequena ou comprida.

Het komt goed.

Obrigado.

Um abraço

Quero agradecer em especial os apoiadores de janeiro. Vocês tornam isso possível <3

Fernanda R.
Kely H. P.
Susan Karpinscki
Camila M. P. G.
Camilla G.
M. A. B. D.
Maria Cristina P. G.
Fabio de A. d. S.
Renata B.
Ludmila C. F.
Júlia S.
rachel a.
Luciana P. de A.

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