O que um show de metal na Holanda me ensinou sobre choque cultural, novas vias e ligar o passado sem se prender a ele
A história de dois shows de metal que assisti na Holanda e como isso reflete choques culturais de um expatriado geográfico e temporal. Do passado vem as tempestades mas não precisamos ficar presos lá
E aí, tudo bem contigo?
Em 2019 eu fui ver Metallica no Arena aqui de Amsterdam. Fui em muitos shows de metal e punk no Brasil, esse foi o primeiro na Europa.
Quando comprei o ingresso eu me contive, “vai de cadeira numerada, Daniel, você é um senhor de 45 anos, não tem mais idade pra pista no metal ”.
Fui criado no Ratos de Porão, Sepultura, shows dos Ramones. Pista era batalha campal estilo braveheart, pontilhada por cave trolls conhecidos como carecas do subúrbio. Volta e meia morria alguém (a sério - lembro de uma morte no Dama Xoc e outra no Sepultura na praça Charles Miller. Eu apanhei dos carecas durante Ramones em 96). Anyways. Isso foi na minha mocidade. Lá fui eu pra numerada.
Metallica entrou arrebentando e eu pulei da cadeira, mãos em chifres 🤘🤘soltando o habitual urro gutural de boas vindas do metal e…
UHAAAAAAAAAASERGGHHHghh… hhh… uhh…
Todo mundo me olhando. Pessoa de trás claramente incomodada por eu estar de pé. Mortificado, sentei.
Olhei a pista. Todos de pé parados olhando o Metallica tocar. Alguns sacudiam levemente a cabeça. Já vi mais entusiasmo em algumas planilhas do Excel.
Eu poderia facilmente ter aberto (e mantido aberta) uma roda de metal de razoáveis proporções usando com licença e por favor, até provavelmente ser removido das instalações pela Segurança por estar causando stress emocional nos calmos espectadores tentando apreciar a conhecida capacidade de Lars Ulrich manter o tempo na bateria ao vivo.
Em vez disso bato cabeça comportadamente sentado na cadeira para não atrapalhar a visão da pessoa de trás, como se estivesse escutando Beethoven no fone de ouvido.
Isso foi o inverso de choque cultural. Foi broxada cultural. As plateias polidamente comedidas na Holanda são amplamente conhecidas pelo comportamento contido. Uma cultura de respeito pelo espaço alheio tem suas vantagens, e eu gosto, não nego. Mas as vezes a inabilidade de se soltar cria uma experiência menos intensa. Pode ser bom para alguns mas para esse velho metaleiro querendo catarse física, well… soa como um desperdício da experiência ao vivo. Para apreciar a música eu tenho fone de ouvido.
Anyways. Ali eu meio que deserdei shows de metal na Holanda. Foi fácil já que 2020 aconteceu, fechou o mundo e a seguir implodiu minha vida em múltiplos aspectos (até hoje).
Porém…
Esse fim de semana eu fui ver Anthrax, Sepultura e Megadeth em Maastricht no festival South of Heaven. Frieza holandesa ou não, não tinha como ignorar esse lineup legendário num festival. Além disso, última chance de eu ver Sepultura, que está acabando esse ano. Vi eles em 96 com Max e Igor, fui ver eles agora pela quarta e última vez.
Dessa vez só tinha pista e to com 52. Fui com confiança. E Foi bem diferente.
From the past comes the storm
A viagem para Maastricht foi relativamente aventurosa graças a obras ferroviárias, mas cheguei debaixo de um pálido céu cinza, ameaçando tempestade. Uma que se concretizaria no dia seguinte, o sábado do show. Não estava nem aí. Como disse uma vez uma mãe holandesa para mim antes de levar seu guri que havia passado a tarde em casa brincando com meus filhos para debaixo de uma tempestade de razoáveis proporções “não somos feitos de açúcar”. Se fôssemos, a gente não sairia muito de casa aqui na Holanda. Ademais, metal na lama e chuva é mais metal. Não seria a minha primeira vez nas condições tribais de lama e caos de festival de metal.
O Festival South of Heaven não entregou lama nem caos. O terreno era bem mantido, gramado, e absorveu a água bastante bem. E a organização, apesar de alguns problemas, se segurou. Sim, teve fila demais pra comida e cerveja, mas eu não bebo cerveja, e deixei a comida pro dia seguinte, me alimentei do metal pesado. Poderia ter um pouco mais de bebedouros porém.
De resto, entrei sem stress, e encontrei um público diverso e de boa, lá para curtir o som e não arrumar treta ou expressar trauma. Tinha crianças (com protetor de ouvido), tinha metaleiros das antigas claramente com muitas décadas de headbang no curriculum, tinha moleque com camiseta do sepultura que claramente não era nascido quando vi eles ao vivo pela primeira vez em 96, ainda com Max e Igor. Tinha mulher, tinha homem, tinha quem era só metal, nenhum gênero abertamente declarado. Tinha caras gigantes, que eu carinhosamente chamaria de “armários” no meu tempo, e tinha cadeirantes, com uma área exclusiva perto do palco só para eles poderem ver o show em paz sem precisar disputar espaço.
E tinha respeito. Um pelo outro e pelo espaço um do outro. Nisso era como foi no Metallica, mas não apenas. Quem queria agito, bem, tinha também.
Whiplash
Eu fui me enfurnando na multidão e quando começou o show do Anthrax eu fui apresentado ao verdadeiro conceito de “parede de som”. As armas sônicas impulsionadas pela bateria metralhando um duplo bumbo me atingiram a mais de 100 decibéis, causando imediato pânico no meu relógio que detecta excesso de volume no ambiente e calmamente me sugere dar o fora dali imediatamente se eu ainda quisesse continuar com uma cóclea funcional.
É difícil descrever a intensidade do som. As ondas sonoras capturaram meus órgãos internos e transformaram meu pulmão num subwoofer e meu crânio numa caixa de ressonância. Metal pesado ganhou sentido físico rapidamente.
Por sorte eu estava de protetor de ouvido. Yeah, eu sei.
Symphony of destruction
Na minha época… espera, deixa eu fazer voz de vovozinho… “Na minha época”, usar proteção de ouvido para show de metal era impensável. Éramos movidos a catarse sônica, invencibilidade juvenil e demonstração de resistência orgulhosa, uma mistura letal que chamávamos de “atitude”. Por algodãozinho no ouvido para evitar dodói na orelhinha era a coisa menos metal do planeta. Ficar surdo por dias era prova de participação e preço de admissão, ninguém questionava.
Claro que o resultado disso é zumbido eterno, o eco fantasma permanente da alma de células da cóclea sacrificadas no altar do metal ao vivo. Um preço que metaleiros hoje não parecem estar dispostos a pagar. Ao menos aqui na Holanda, não sei no Brasil. Mas mesmo que isso tenha mudado no Brasil também, aqui temos um caso de choque cultural que, se não é apenas geográfico, é temporal também. Eu achei uma evolução.
Começa que hoje os protetores de ouvido não são “algodãozinho no ouvido”, mas dispositivos que reduzem o impacto sonoro preservando a qualidade do som. Você ainda tem a participação física dos seus órgãos internos vibrando, mas em vez de ficar surdo, você de fato até ouve melhor a música, já que seu tímpano está menos ocupado em morrer.

Armado de protetores da Loop, pude bater cabeça sossegado no meio da multidão, que ia de espectadores concentrados a pessoas voando no mosh aberto, chuva caindo e pescoços batendo, vendo lendas do metal baterem cabeça e sem precisar perguntar se a gente tava vivo.
Não que eu tivesse muito vivo no fim da noite. Após o Megadeth, andei faminto pelas ruas crepusculares de Maastricht em direção ao meu hotel. Não jantei, fui direto pra uma banheira e cama. A alma metaleira restaurada, era cuidar do corpo agora.
Dormi pesado.
It’s for the kids
E assim eu assisti ao último show do Sepultura da minha vida, lucrando Dismember, Anthrax, Megadeth no bônus (para mim). Eu vi Max e Igor em Santo André e no Olympia, Derrick no Credicard Hall e agora em Maastricht, encerrando um ciclo, se despedindo de nós veteranos e passando a tocha para a molecada que tem menos idade do que a minha camiseta favorita da banda. A sério, ver o metal sobrevivendo a nós todos faz meu coração fazer chifrinhos com a mão, bater cabeça e dizer fuck yeah.
Roots bloody roots
Quando a gente muda, a primeira impressão pode ser dissonante, e o público é diferente dos shows da nossa origem, mas com o tempo podemos achar nossa tribo, diferente em alguns aspectos, unida no que importa. Não ficar preso ao lugar de onde viemos não quer dizer trair o movimento, nem negar origem, pois podemos levar ela conosco para o presente e o futuro.
Viver em outro país ou sobreviver tempo suficiente para perceber que a vida não é uma fotografia mas um filme em câmera lenta é um desafio, o choque é real e inevitável. Dentro da roda de mosh também, e nem por isso é ruim.





