Os dois assassinatos que mudaram a Holanda (versão REDUX)
Como dois crimes políticos do começo dos anos 2000 aceleraram a polarização da sociedade holandesa e ajudam a explicar como chegamos até Geert Wilders e sua força na extrema direita holandesa
Os dois assassinatos que mudaram a Holanda (versão REDUX)
Como dois crimes políticos do começo dos anos 2000 aceleraram a polarização da sociedade holandesa e ajudam a explicar como chegamos até Geert Wilders e sua força na extrema direita holandesa
E aí, tudo bem contigo?
Antes de começar: essa é uma versão editada de dois artigos que publiquei em 2023, quando Geert Wilders, o extremista de direita ganhou as eleições parlamentares da Holanda. Ele eventualmente não se juntou ao governo, mas manteve forte influência nele, até as eleições de 2025. O novo gabinete é liderado por Rob Jetten, do D66, partido de centro-esquerda. Jetten assumiu com 39 anos (o mais jovem Primeiro Ministro da história do pais), e é o primeiro Primeiro Ministro abertamente homossexual a assumir na Holanda. Esse artigo vai cobrir uma parte relevante da história recente da Holanda, e ligá-la com a ascensão da figura política de Wilders, que ainda pemnece influente. No final, dou minha reflexão sobre como derrotar extremismo e suas armadilhas. Não é conteúdo novo, mas é conteúdo melhorado e ainda relevante.
Você pode ter a imagem que a sociedade holandesa é super avançada e há muitos anos superou a violência como forma de fazer política, associando assassinatos políticos com países menos “desenvolvidos”. Mas nos últimos vinte anos houve dois assassinatos que chocaram a sociedade holandesa e têm influência na política do país até hoje.
Você não pode entender o fenômeno Geert Wilders, o polêmico político com posições extremas contra imigração e o Islã, contra o multiculturalismo holandês, sem entender o assassinato de Pim Fortuyn em 2002, e de Theo Van Gogh em 2004.
A direita governa a Holanda desde 2002. Fortuyn foi assassinado em 2002. Em 2004 Wilders fundou seu partido extremista (chamado PVV) e começou a ganhar proeminência na política holandesa. Theo Van Gogh foi assassinado em 2004.
Nada disso é coincidência. Não que haja causa e efeito direto, mas há influencias que podem ser identificadas,e lições a serem tiradas.
Vou explicar.
A direita, Pim Fortuyn, a esquerda seu assassino
Quem foi Pim Fortuyn e porque ele é relevante na política holandesa de hoje
Pim Fortuyn era um professor universitário, formado em Ciências Sociais. Inicialmente simpatizante da causa comunista, chegou a ser membro do Partido do Trabalho, de esquerda.
Posteriormente abandonou a carreira acadêmica, se tornou um executivo e colunista, eventualmente entrando para a política. No começo dos anos 2000 ele estava com alta visibilidade.
Ele estava chamando a atenção por falar abertamente certas coisas que eram consideradas tabu, mas muita gente estava pensando, ou pelo menos se questionando.
Na época, questionar abertamente o multiculturalismo era impensável. Mas muita gente estava incomodada com a entrada de valores trazidos por imigrantes, particularmente islâmicos, para a sociedade holandesa. Ele também era um eurocético.
Mesmo assim, Pim recusava o rótulo de extrema direita. Ele também defendia causas que a extrema direita tradicionalmente se opunha, como direitos LGBTQ: ele mesmo era abertamente homossexual. O que não chocava a Holanda, o primeiro país do mundo a legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo em 2001.
O questionamento do multiculturalismo, porém, chocava. E muito. Ao mesmo tempo, o sentimento de incomodo com a imigração e mudanças culturais por imigrantes existia. E muita gente se sentia tolhida em discutir o assunto e expressar esse desconforto. Pim acabou dando voz a essas pessoas, atingindo um nervo e explodindo um debate emocionalmente carregado.
Crescimento de Pim Fortuyn na politica da Holanda
Com isso, Fortuyn ganhou grande projeção nacional, e no fim de 2001, anunciou que iria concorrer ao parlamento. Para isso, fundou em 2002 um partido com o seu nome, a Lista Pim Fortuyn, ou LPF, onde era o único membro.
O LPF logo mostrou sua força e venceu a maioria dos assentos no conselho municipal de Rotterdam no mesmo ano de sua fundação. Isso, claro, só aumentou a exposição de Pim no país. Havia bom prospecto de ele ser tornar parte do governo nas próximas eleições nacionais. Isso não se concretizaria, porém.
Um Assassinato político na Holanda
No dia 6 de maio de 2002, após dar uma entrevista para a rádio, Pim saiu do estúdio acompanhado de alguns assessores e seu motorista.
Ele foi interceptado por Volkert van der Graaf, um ativista ambiental e de direitos animais, disparando seis tiros nas costas de Fortuyn, que faleceu no local.
O assassino foi perseguido, cercado pela polícia e se rendeu imediatamente.
A direita assume o poder na Holanda
O assassinato criou um furacão na sociedade da Holanda. Porém, as eleições não foram adiadas, e Pim permaneceu na cédula, pois a lei não permita alterações. Ele foi mantido na cédula como líder do partido.
O PvdA, partido trabalhista de esquerda, que governava até então, ficou em quarto lugar, e perdeu o governo. A direita formou uma aliança e partidos de esquerda só voltariam ao poder em 2026.
O assassinato de Pim Fortuyn é hoje considerado um dos eventos mais importantes e influentes da história recente da Holanda. Ele expos, e ajudou a criar, uma grande polarização na sociedade holandesa. Infelizmente, não seria o último ato de violência política a impulsionar essa polarização.
Dois ano depois outra figura chave da política holandesa seria alvo de violência, mesmo não sendo exatamente um político. Se nome era Theo van Gogh.
Quem era Theo van Gogh: o artista provocador
Espera, Theo van Gogh não era o irmão do famoso mestre pintor holandês? Sim, era, claro, mas esse obviamente é outro Theo van Gogh. Estamos falando do descendente do irmão do famoso pintor holandês.
Theo van Gogh em 1984
De toda a forma, Theo nasceu em 1957, e na juventude largou a universidade de direito para ir trabalhar com teatro e cinema, televisão, e seu trabalho sempre teve um cunho político.
Theo era também colunista, e ganhou projeção não só pelos filmes, mas por ter opiniões controversas. Depois do 11 de setembro ele se tornou um forte crítico do Islã.
Theo era um amigo e apoiador de Pim Fortuyn, se juntando a ele na condenação ao Islã, do multiculturalismo e da monarquia. Ele tinha um site chamado “De Gezonde Roker” (O Fumante saudável, sim, a provocação começava no nome da coluna), onde publicava textos atacando o viés liberal da sociedade holandesa em diversos ângulos. Ele também publicou um livro em 2003 chamado “Allah weet het beter. (“Alá é quem sabe melhor”) onde, adivinha, ele criticava o Islã.
Theo sempre se meteu em polêmica política e religiosa (incluindo com observações antisemitas nos anos 90), agitava o barco, e era contundente com seus textos e retórica.
Suas posições só ganharam força depois da morte de Fortuyn. Um ano depois, em 2003, Theo apoiaria mais uma figura política: Ayaan Hirsi Ali. Nascida na Somália, pediu asilo político na Holanda. Ela se tornaria peça chave nos eventos que levaram a morte de Van Gogh.
Uma artista e parlamentar contra o Islã: Quem é Ayaan Hirsi e como seu filme transformou a Holanda
Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália em 1969 e aos 5 anos de idade ela sofreu a bárbara prática de mutilar os órgãos genitais femininos. É uma prática tradicional em muitos países da África, Oriente Médio e algumas partes da Ásia. É proibida e condenada internacionalmente há décadas, mas infelizmente ainda praticada.
Aos 23 anos de idade, Ayaan pediu asilo político na Holanda, e 5 anos depois, se naturalizou holandesa. Ela renunciou a fé islâmica de sua juventude e se tornou feroz crítica da religião. Ela se identificou com uma ideologia de centro-direita, se juntando ao partido neoliberal VVD. Em 2003 ela se elegeu para o parlamento holandês, e foi nessa época que recebeu o apoio de Theo van Gogh.
Em 2004, Ayaan escreveu o roteiro para um curta metragem chamado Submissão parte 1. O título alude uma das traduções possíveis da palavra Islã (submissão).
No filme, 4 mulheres (retratadas pela mesma atriz) falam com Alá, contando suas histórias de abuso. Elas estão usando um véu e roupas transparentes, expondo por baixo o corpo nu, onde estão escritos com henna versos do Corão. Esses versos deixam claro o papel submisso da mulher em relação ao homem e a impureza da menstruação.
A essa altura você já adivinhou quem é o diretor desse filme, né? Sim, Theo van Gogh.
O filme foi eventualmente exibido na TV aberta holandesa. Desnecessário dizer, causou grande controvérsia. E, infelizmente, houve várias ameaças de morte aos dois.
Ayaan ficou assustada com as ameaças, mas Theo não levou a sério, e recusou guarda costas. Ele teria dito, de acordo com Ayaan, “Ah, ninguém mata o bobo da corte”.
Ele estava errado.
O bárbaro assassinato de Theo van Gogh
Na manhã de 2 de novembro de 2004, Theo estava indo de bicicleta para o trabalho. Ao parar em um sinal, ele foi atacado a tiros por Mohammed Bouyeri, holandês de origem marroquina. Ele foi atingido por alguns tiros, mas tentou fugir para o outro lado da rua, e se esconder atrás de carros. Porém, Bouyeri continuou perseguindo e atirando (ele atingiu também dois transeuntes).
Durante o ataque, Theo clamou por misericórdia, implorando para o ataque cessar, pedindo para conversar. Em vão. Bouyeri executou van Gogh com um total de 8 tiros.
Com o diretor caído na rua, o assassino se aproximou empunhando uma faca e cortou a garganta de Theo van Gogh. E por fim, ele usou a faca para pregar no peito de van Gogh uma carta ameaçando Ayaan de morte.
Quando uma testemunha do ataque gritou “você não pode fazer isso!”, Bouyeri respondeu “posso, e fiz, e é bom pra vocês saberem o que lhes aguarda”.
Theo Van Gogh faleceu no local. O assassino tentou fugir, atirando contra a policia, em busca de provocar sua morte e atingir o martírio. Porém, a polícia holandesa atirou em sua perna, desarmando-o e efetuando a prisão.
Consequências: país em ebulição e surgimento de Wilders
A Holanda pegou fogo Apenas 2 anos depois do assassinato de Pim Fortuyn, o país saiu do choque para a raiva. Houve protestos. Depois vieram ataques a mesquitas, uma bomba em uma escola muçulmana, incendios criminosos em outra escola. Websites muçulmanos comemoram o assassinato bárbaro, e houve ataques de coquetel molotov a igrejas cristãs. O país entrou em ebulição.
E, pondo gasolina nesse fogo, emerge quem?
Geert Wilders.
Agindo de dentro de seu próprio partido, Wilders soltou o verbo e aproveitou para promover o sentimento anti islâmico que varria o país. Levou as propostas de Fortuyn para um extremo ainda maior e surfou a onda de indignação geral. Ele propôs imediata paralisação de toda imigração muçulmana, vociferou contra o Islã, e ganhou projeção se colocando como uma espécie de herdeiro de Pim Fortuyn, como se dissesse “viu só no que deu ser tolerante com esses caras?!”
Nas próximas eleições parlamentares, em 2006, Wilders seria eleito pela primeira vez.
Em 2023, o seu partido PVV, ganharia a maioria dos assentos no parlamento holandês.
O que dois assassinatos nos ensinam sobre extremismo
Existe uma tentação, quando se fala de Wilders, de focar apenas nas suas propostas mais chocantes (e elas são chocantes). Ele propõe alterar a constituição holandesa para abolir a cláusula de igualdade perante a lei e incluir uma declaração de superioridade da cultura judaico-cristã. Isso não é conservadorismo. Ao contrário: são propostas radicais, beirando revolucionárias.
Mas há algo mais importante a entender aqui, que vai além da Holanda.
Extremistas precisam de outros extremistas para crescer.
Por definição, extremistas são minoria. Para chegar ao poder, eles precisam arrastar para o seu lado uma massa de pessoas que normalmente ficaria distribuídas ao longo do espectro político. E a única forma de fazer isso é criar um ambiente onde as únicas opções pareçam ser um extremo ou outro; onde não haja meio-termo, onde cada pessoa seja forçada a escolher um lado oposto a outro.
Para isso, o extremista precisa do inimigo no polo oposto. Um extremo alimenta o outro.
O que isso significa na prática? Que quando você reage a um extremista de forma igualmente extremada, você não está combatendo ele. Você está ajudando ele. Você está fornecendo exatamente o inimigo que ele precisa para justificar sua narrativa e recrutar os indecisos.
Extremos se combatem com nuance, não com mais radicalização. É preciso restaurar o espectro político e capacidade de se distinguir tons de cinza. A realidade não é preto e branco. Isso não quer dizer que se deva ser “neutro”, ou “isento” nem dizer que “os dois lados são iguais”. Enxergar nuance, entender sem necessariamente concordar, não impede de ter posicionamento claro. Mas impede de se transformar política em tribalismo e cabo de guerra, uma situação que só serve a extremistas.
Os dois assassinatos que sacudiram a Holanda foram atos de extremismo brutal e condenável. Mas também foram o combustível perfeito para um político habilidoso construir uma carreira inteira em cima da polarização que eles geraram. Entender esse mecanismo não é desculpar ninguém. É entender como a armadilha funciona a única forma de não cair nela de novo.
Forte abraço,
Daniduc






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