Correr emagrece? (Como correr mudou minha vida)

Correr emagrece? Essa é uma questão que sempre me fazem, especialmente quando veem minhas fotos de antes e depois, de 2018 e agora e notam que perdi peso. É fato que meu corpo mudou, mas a minha vida toda mudou, e corrida foi apenas um dos fatores. Para responder de maneira correta se, na minha experiência, correr emagrece, eu preciso explicar um pouco sobre essas mudanças. Porém, se você não tem a paciência de entender o processo e quer uma resposta simples (ou simplista), a verdade é que… não. Correr não emagrece.

Mas eu emagreci. E eu corro.. Agora, como vamos explicar?… Segue lendo. Pode demorar um pouco para chegar na corrida, mas eu prometo que chega.

– Correr não emagrece? então explica isso, Ducs…
– Vou explicar…

Peso é só um número

Vamos começar do começo. Eu passei a ter excesso de peso logo depois dos 20 anos de idade (tenho 47 hoje – na foto acima eu estou com 32 anos de um lado e 46 anos de outro). Meu peso máximo (que eu medi) foi 104kg (tenho 176cm de altura). Eu não estava contente com essa situação, e tentei mudar várias vezes, sempre usando abordagens baseadas em restrições – ou seja, cortar coisas que eu gostava de comer, diminuir quantidades, contar calorias. Funcionava… por um tempo. Depois voltava tudo, e mais.

E eu ficava doente o tempo todo. Não só gripes e resfriados. Tô falando de doenças mais sérias, como diverticulite, cálculo biliar (pedra na vesícula), pressão alta, gordura no fígado (caminho de entrada para doenças ainda mais sérias) e síndrome do intestino irritável. Sem mencionar falta de energia, mobilidade, força, resistência. Claramente algo estava errado comigo, e o peso era apenas um dos indicativos, talvez o menos importante…

O problema dos índices e números (peso) para medir saúde

Porque a verdade é que nem sempre o peso é um sintoma de problemas. Existem muitos motivos para uma pessoa ter mais peso do que outra, e nisso inclusive o número na balança é um indicador incompleto e até inadequado. O que compõe esse peso é muito mais importante. Você pode ter um fuzileiro naval composto de puro músculo e resistência pesando o mesmo número na balança que uma pessoa com a saúde totalmente desequilibrada como eu tinha, tendo praticamente a mesma altura. Ossos pesam, também, e isso varia com muitos fatores de pessoa para pessoa. Músculo pesa mais que gordura (tecnicamente, músculo é mais denso que gordura). O número na balança não é um bom indicativo, tomado isoladamente. Portando, o famoso IMC, também.

Mas mesmo a composição corporal é um indicador falho. Mulheres têm maior porcentagem de gordura corporal do que homens (em geral), e isso não indica nenhum problema. Um atleta olímpico que treina tanto a ponto de viver sob stress e com lesões pode ser considerado menos saudável do que uma pessoa do mesmo sexo com um percentual de gordura bem mais alto, mas vivendo em paz e equilibradamente, sem problemas de saúde.

Índices são úteis, mas podem ser problemáticos porque a gente tende a focar em manipular esses índices em vez de mudar a realidade que eles parcialmente refletem e vagamente delineiam em seu conjunto (e tanto pior se focamos em mudar um único e problemático índice apenas, como o número na balança).

Não… claramente o meu problema não eram os números – nem na balança, nem na fita métrica, nem nos índices. O problema é que eu estava doente, e ficar brigando com a balança, com a minha comida, com a minha mente não iria mudar isso. Eu tinha que querer mudar de fato, por completo, e isso não seria fácil.

Força de vontade não é a resposta

Quando eu fiz aquelas tentativas que mencionei (que funcionavam por um tempo e depois desandava tudo), eu achava que o segredo era ter a força de vontade para implementar as restrições e viver dentro delas. Eu não enxergava que isso é obviamente absurdo: é impossível viver voluntariamente o resto da vida num sistema que tira nossa liberdade e nosso prazer, baseado em pura força de vontade. Força de vontade é você brigando constantemente com você mesmo. Adivinha quem vai perder?…

Não. Força de vontade não é a chave. Qualquer vitória na força de vontade é temporária. É preciso fazer as pazes com você mesmo, e achar um caminho que você goste e te traga o resultado que você quer. Sim, é preciso que a visão de longo prazo supere a gratificação imediata, mas isso não quer dizer força de vontade abafando esse desejo de gratificação imediata. Quer dizer, a visão de longo prazo focando a sua mente para buscar aprender e descobrir prazer e interesse em caminhos novos, e longe dos padrões estabelecidos, na paciência de reconstruir uma vida que foi formatada há tempos e que existe todo um apoio para te manter nela (mesmo que não traga bons resultados).

Em vez de usar a força de vontade, que se baseia em resistência e negação, é preciso montar curiosidade e interesse em ser, de novo e eternamente, um aprendiz. Descobrir a graça de descobrir. É preciso querer, de fato, mudar, e não descobrir um truque, um código secreto, uma fórmula, que te permita continuar o mesmo, mas com outras consequências. Ou seja, algo que te permita “mudar” sem mudar de fato. Isso não existe. E certamente corrida não vai te permitir isso.

Se você odeia correr, mas quer sair para correr para poder continuar com o resto da sua vida igual – sem mudar o que come e bebe, o quanto dorme, o que faz numa base cotidiana, ou seja, ficar tudo igual, ou até mais, mas com alguns minutos de corrida (que você faz baseado na pura força de vontade)… well. Cara, deixa eu já dar o spoiler: não vai funcionar. Capaz de até piorar.

Nope. Mudar é difícil, não tem atalho e não acontece de uma hora para outra. É um processo. Mudar sua mente e entendimento e motivação, inclusive, é um processo também. Mas para iniciar esse processo é preciso uma faísca. Uma fagulhazinha que seja, que vai esquentar papel, que vai ativar o carvão, que vai ligar a brasa, que vai queimar por muito tempo. Não vai ser um fogaréu – se não seria fogo de palha. É um processo.

A fagulha é o que muda a sua motivação de algo externo para algo interno de verdade.

A sua motivação tem que ser interna, não externa

Existe muita pressão para perder peso, e muito julgamento e estereótipo negativo em quem tem peso. A imagem de que a pessoa é preguiçosa, hedonista, pouca força de vontade, desleixada… a lista de xingamentos é extensa. Eu sei, eu estive na mira dela. Essa pressão é uma força externa, mesmo quando ela é internalizada e a própria pessoa com peso acaba acreditando no estereótipo. Porque esse julgamento negativo se origina nos outros, mesmo que você mesmo passe a repetir depois de um tempo.

E aliás, deixa eu te dar outro spoiler: julgamentos e estereótipos negativos não desaparecem quando você perde peso. Eu passei a receber outros: “nossa que susto, tá muito magro, você está doente?” “Cadê o sorriso, quando era gordinho era mais feliz…” “você tem bulimia?” “credo que radical, eu tenho uma boa relação com comida…” foram alguns dos que ouvi.

Mas não me importei, sabe por quê? Porque agora a minha motivação não era ter um bom julgamento dos outros (ou de mim mesmo, repetindo as histórias originadas nos outros). Eu havia achado meu caminho. A minha fagulha.

Em 2018, tive uma crise de cálculo biliar. Não vou entrar nos detalhes, mas resultou na pior dor da minha vida (morfina não ajudou), um passeio de ambulância, admissão na emergência, cirurgia. Foi… ruim. Mas o pior de tudo é que essa, apesar de ter sido a pior, estava longe de ser a única vez que fui admitido em emergência em hospital com dores horríveis, por diversos motivos e variados diagnósticos em partes diferentes do meu corpo.

Eu saí da cirurgia e pensei: cara, chega. Isso não pode ser só azar meu. Não é possível eu ter tanto problema de saúde. Eu estou claramente fazendo algo errado no modo como vivo minha vida. Tenho que mudar.

(Note que “peso” não apareceu na minha fagulha).

Só não sabia como. Resolvi aprender. Como mudar minha vida? Eu fui atrás de quem já tinha feito ou que parecia estar tendo bons resultados, e nisso descobrir um monte de gente, e um monte de técnicas. Testei e fui vendo o que funcionava, mas sempre com três princípios em mente:

  1. Esquecer pré-conceitos do passado: decisões que o Daniel de 2, 10, 20, 30 anos trás que o Daniel de hoje mantinha sem questionar e entender. “Odeio correr. “Meditar é para hippies”. “Ugh, não gosto de berinjela’.
  2. Dedicar esforço sincero para entender e aprender a nova técnica e atividade. Partindo do pressuposto que pode ser legal e divertido, como fazer? O que a torna legal e divertida? Qual a ideia ou principio? Ou seja, ter a mente de aprendiz, curiosa e interessada no processo, no como, no o que… não no resultado. O resultado seria consequência do processo.
  3. Uma mudança por vez, aos poucos, começando sempre fácil e devagar. Não sair mudando tudo de uma vez, de monte. Um tico por vez, com um pequeno passo.

E nisso, decidi tentar correr, uma atividade que eu odiava. Comecei na sala de casa, descalço, as cinco da manhã, correndo em círculos por dois minutos, descansando um pouco, mais dois minutos (esse era o meu fôlego na época).

E dali se seguiu a revolução. Terminei correndo uma meia maratona em duas horas. Eu contei todo meu processo de aprendizado na corrida em outro post – recomendo ler depois desse.

Mas por muitos meses de corrida eu não perdi um único e miserável quilo. A corrida (sozinha) não me fez emagrecer.

Mas…

Corrida me ajudou a mudar minha vida (o que me levou a emagrecer)

No processo de aprender a correr eu descobri várias coisas… incluindo que eu gostava de correr. Muito. Mas tipo, bastante. Eu descobri que eu não odiava correr coisa nenhuma. Eu só não sabia como.

E conforme eu descobria isso, eu queria melhorar cada vez mais nela. Aprender a correr era algo que me dava prazer, e eu acabei indo atrás de ver como fazer isso.

Comer, por exemplo. Corrida é uma atividade física intensa, e se você não está bem nutrido, seu corpo não vai ter o que ele precisa para dar conta de fazer o que você quer que ele faça, nominalmente, correr distâncias bisonhas em horas indecentes do dia.

Passei a pensar mais no que eu comia, em que quantidade, e como eu me sentia comendo aquilo. No meu caso, virei vegetariano (carne me pesava, não me sentia bem, e vendo vários corredores plant based resolvi tentar e foi sucesso. Isso varia de cada um – ouça seu corpo), passei a comer carboidratos integrais, larguei o açúcar vazio adicionado (exceto como intra treino), passei a comer um café da manhã de aveia, leite vegetal, frutas, sementes como chia, linhaça. Folhas, e saladas passaram a entrar no cardápio. Uma pessoa com deficiências nutricionais não vai se sentir super campeã correndo. Sem a carne, tive de buscar proteínas em outras fontes, e comer grão de bico, lentilha, feijão (eu “não gostava”- olha o Daniel de 20 anos atrás aí. Resolvi aprender a temperar e cozinhar e redescobrir os sabores). Passei a comer mais… mas diferente. E me sentir melhor, e ter melhores resultados na corrida. O que me fez ir ainda mais atrás de novos conhecimentos nessa área. Passei a treinar força e mobilidade para correr melhor e mais longe.

Os números e índices passaram a mudar para refletir a nova realidade.

E não foram só índices e números. Meu corpo ficou mais contente com o movimento. Nosso corpo evoluiu num ambiente em que nossa sobrevivência dependia do movimento. Nem tô falando de fugir de predadores – tô falando de ser caçador coletor. A gente precisava andar e correr e subir em árvores, e carregar peso, para poder comer. Não tem jeito no mundo da gente ser adaptado para fazer algo e esse algo não te deixar contente.

Nisso até a meditação ajudou: com a mente quieta, passei a escutar melhor meu corpo. E também me permitiu me tornar mais consciente de escolhas que eu fazia no automático, sem ter percepção de que eu tinha uma escolha, incluindo o que eu comia, quando, e quanto, ou se eu deveria descansar ou treinar. As corridas passaram até a serem mais prazerosas, se transformando em meditações em movimento. Meditação tem um monte de benefícios, falei dela aqui.

Dormir! Se você não dorme bem, e o suficiente, não se recupera direito da corrida, e cadê energia para fazer aquele long run no domingão de manhã se você ficou até altas horas acordado e bebendo?

Aliás, parei totalmente com o álcool. O prazer que ele me dava não compensava a interferência no meu sono e nos meus treinos, que me dava muito mais prazer, e eram o foco agora.

Meu corpo foi mudando junto comigo. Perder peso não era o meu objetivo, mas passou a ser a consequência.

O resultado é consequência do processo (Mens sana in corpore sano)

Nada disso que eu fiz foi baseado na força de vontade. Não teria mantido se fosse. Nenhuma mudança teria ocorrido se meu objetivo fosse apenas correr para perder peso. Eu corri meses sem perder peso, e só depois que mudei minha vida em vários aspectos eu perdi peso.

O meu peso atual (65 kg no minuto em que escrevo) é consequência de como vivo minha vida. E ele varia ao longo do tempo. Ele varia ao longo do dia, dos meses, ele é uma medida viva de um corpo vivo. Se ele sobe um pouco ou desce um pouco não quer dizer que “engordei” ou “emagreci” 1 quilo ou dois. Se meu peso está variando numa tendência de subida ao longo de um tempo, é porque ele está refletindo alguma mudança na minha vida (interna ou externa, genética ou de life style) que está se refletindo no meu corpo. O mesmo se ele desce.

Mas o meu peso continua não sendo o índice mais importante, nem meu percentual de gordura, nem nenhum outro número. O mais importante continua sendo como eu me sinto no dia a dia.

Eu me sentia… doente. Meu corpo não estava contente. E não dá para ser contente na mente com um corpo descontente (ou o inverso). Porque em última análise, eles são parte integral do grande todo que é você. Nisso eu redescobri o que os romanos já sabiam… Mens sana in corpore sano.

E aí? Correr emagrece?

Não. Peso é dado por muitos fatores (incluindo genética e outros fatores de saúde), e não vai ser a corrida que vai mudar isso. Mas peso pode ser também um dos reflexos de como você vive sua vida, e corrida pode ser um canal, um foco para você mudar como vive.

E nisso, nem precisa ser corrida. Pode ser qualquer outra coisa, desde que você dê o que seu corpo precisa: movimento, sono, nutrição. Cuide bem dele, e ele terá o peso que precisa ter. Cuide também de sua mente, e ambos ficarão contentes. Você ficará contente. Não porque atingiu determinado objetivo, número ou critério específico, mas porque o processo de viver e descobrir te deixam contente.

Não sei você, mas para mim, é o que basta.

👇Se junte ao movimento e faça parte da lista👇